segunda-feira, julho 9

Unidade

Na terra, no nosso planeta, há milhares, dezenas de milhares de locais, cada um com o seu nome (além disso, esses nomes variam a sua escrita e pronúncia de língua para língua, o que aumenta a sua variedade), e são tantos que é impossível a quem viaja reter nem que seja um por cento deles. Ou então a nossa memória – o que acontece frequentemente – fica cheia de nomes de localidades, regiões e países, a que já não conseguimos associar nenhuma imagem ou paisagem, nenhum acontecimento ou rosto. Pior ainda, misturamos e confundimos esses nomes todos, e nada fica por fim. Passamos a associar o oásis Sodori à Líbia e não ao Sudão, a cidade de Tefé a Laos e não ao Brasil, o pequeno porto de pesca de Galle a Portugal e não à sua localização real – no Sri Lanka. A unidade do mundo, tão difícil de criar na realidade perceptível, concretiza-se no nosso cérebro, nas diferentes camadas das nossas recordações.

Ryszard Kapuscinski, in Ébano – Febre Africana

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