segunda-feira, abril 26

Diários da Florida 2


Keys
Depois de nove horas e meia de viagem, o jet-lag dissolve-se no entusiasmo da descoberta. Acordamos de madrugada porque o corpo ainda parece estar convencido que é meio-dia quando na verdade o dia não vai a meio, apenas se adivinha na luz cinzenta e azul que se derrama na janela do quarto de hotel. Há uma felicidade qualquer que toma conta dos sentidos nestes momentos que antecedem o início da verdadeira viagem, aquela que começa depois dos aviões e dos aeroportos. O pequeno-almoço cheira a waffles e a café e a bagels com creme de queijo derretido. À volta, estão famílias e talk-shows sobre o drama da existência humana em formato televisivo.
O mapa da viagem abre-se sobre a mesa. Está tudo em aberto, tudo é possível porque nada está definido. Decidimos ir até às Keys e ver então essa promessa tantas vezes feita de atravessar um mar por uma estrada feita de ilhas. Na recepção, uma rapariga simpática de farda amarela e verde diz-nos que o hotel está completamente reservado. Só marcámos a primeira noite, pelo que isto quer dizer que não fazemos a menor ideia de onde dormiremos no final da aventura do dia. Arrumo a mochila de vez e atiro-a para a mala do carro alugado na noite anterior. À nossa frente está uma das estradas mais míticas dos Estados Unidos, a US Hwy1. Uma hora depois, o mar das Caraíbas começa a surgir por entre a vegetação mangue e pontes que sobem e descem no meio do azul brilhante. Seguem-se mais de 150 quilómetros até Key West, a última das ilhas habitadas. A estrada foi construída depois de nos anos 30 a antiga linha dos caminhos de ferro ter sido destruída por um tornado, mas ao longo do caminho ainda se vêem partes dessa estrutura antiga. 150 quilómetros sobre o mar. E se o mundo dos homens fosse outro, talvez fosse possível conduzir até Havana.  

 

sexta-feira, abril 16

Diários da Florida 1



Partida
A noite de Madrid quase nos faz o perder o avião. Acordamos tarde, o corpo a ressentir “tapas” e “cañas”, mas a cabeça a sonhar com o Verão que aí vem. Dentro de poucas horas, embarcaremos para Miami, o outro lado do Atlântico que nos espera com promessas de sol e mar e de um mundo afinal diferente.
Barajas é a confusão de sempre. A companhia lembra-se de fazer o check-in para três voos em dez balcões em simultâneo. A fila é poliglota e parece interminável, serpenteando por entre trolleys e malões e avisos pela estereofonia do aeroporto. Eu sou só uma mochila e R. é apenas uma mala de mão que dispensa cuidados de despacho. Entra a calma e a paciência das viagens. Afinal, vamos e, como vamos, todo o tempo é relativo. Tudo se compõe na velocidade de hospedeiras e hospedeiros de terra com ar de quem teve aulas de etiqueta para aguentar com sorrisos as pressas alheias. Na fila, uma rapariga com ar vagamente cubano abre e fecha a mala, faz e desfaz roupas e bagagens a um ritmo frenético. Não percebo porque o faz tanto e penso que talvez seja o nervosismo, a ansiedade, o simples desejo de partir e levar consigo tudo o que não pode ficar esquecido.
Cartões de embarque e mais corredores, cadeiras que esperam e seguranças que desesperam. Todas as malas são abertas e todo o conteúdo é retirado e revirado. Finalmente embarcamos. O sol de Madrid bate na pista e parece que imobiliza a aeronave. Nada se passa e mais uma hora passa sem que se passe nada. Finalmente descolamos. No ar, as nuvens deslizam pela fuselagem como se fossem uma despedida. Para nós, porém, não há despedidas. Vem aí o desconhecido e o imprevisto, a descoberta, a mudança e a diferença. A viagem.