quarta-feira, outubro 8

FIM

E pronto, chegou o momento. PRÉSTÓRIAS vai ser desactivado. Agradeço, e muito, a todos os que me leram durante os últimos dois anos, a todos os que com entusiasmo e emoção seguiram as minhas viagens, a todos os que me enviaram comentários e que de um modo ou outro foram seguindo as palavras que por aqui deixei. Mas tudo tem um fim. O blog mantém-se aberto no mesmo endereço de sempre para que seja possível a sua consulta. Até qualquer dia.

Mr Vertigo, David Frazer

segunda-feira, outubro 6

Godot não vive no meu bairro

A cidade é uma das maiores contradições da humanidade. Juntam-se milhares, às vezes milhões, de pessoas num mesmo espaço e aumenta-se o isolamento. Isto é, quantos mais somos, menos nos vemos uns aos outros. Escapam as gentes com vida de bairro e as que vivem em cidades com verdadeiro espírito cosmopolita, mas mesmo estas últimas sofrem as agruras de mal terem tempo de se verem a si próprias, quanto mais aos outros.

Pensando na cidade onde vivo, esta Lisboa das sete colinas, uma análise ainda que superficial chega rapidamente à conclusão que nem vida de bairro, nem espírito cosmopolita. Há excepções, claro que há excepções – até porque há bairros e vida a condizer com eles –, mas a grande maioria dos mortais lisboetas vive no limiar entre o sms e o e-mail. É que, não havendo tempo, não há pessoas e quem as encontre. Assim sendo, trata-se de tudo por mensagem ou correio electrónico. Só para descobrirmos, na maior parte das vezes, que “esta 2ª não dá” ou que “na próxima 4ª já tenho não sei o quê combinado”. Resultado: amigos que vivem na mesma cidade e que conseguem estar três meses sem se falarem, sem se verem, sem sequer terem notícias um do outro. Mas claro que não há desculpas para os afastamentos. Afinal, se se sentir só, a solução é fácil: mande um sms ou escreva um e-mail. Ou então saia de casa e espere que o acaso trate do resto. É mais fácil encontrar uma cara familiar no meio de três milhões de pessoas do que numa casa onde só viva uma.

quinta-feira, outubro 2

A minha parede

Paula Rêgo, O Tempo Passado e Presente, 1990.

terça-feira, setembro 23

Aquele abraço

Este blog entrou em crise. A questão é bem simples. Ausente de viagens e de verdadeira disponibilidade para contar e recontar "pré-histórias", a coisa arrefeceu. Na verdade, nem era preciso escrever isto. É uma evidência que salta ao olho menos atento. Assim, há quem vá deixando de ler, enquanto outros, mais "amigos", continuam a insistir na nota, mas sempre me vão perguntando "Olha lá, aquilo do pinguim, era o quê?" Pois.
Mesmo assim, talvez nem tudo esteja perdido. Afinal de contas, estou aqui a escrever este texto, não estou? E assim, deu-me para reavivar a coisa através da imagem. Mais especificamente , a que se pode ver aí abaixo. Dei de caras com ela (a imagem) num simples dia de trabalho, mas nunca mais me saíu da cabeça. Não sei a autoria, sei apenas que fazia parte de uma campanha publicitária dos correios da Austrália. E já que estamos em crise, nada como receber um abraço das palavras.

quarta-feira, setembro 17

Filosofia de algibeira

in "Today's Cartoon by Randy Glasbergen"

segunda-feira, setembro 15

Outono

M. corre para a água. O espelho de montanhas quebra-se sobre o seu corpo, o corpo que se afunda por entre o frio. Apenas os braços empurram a escuridão adivinhada pelo sol. M. regressa à tona e contempla o silêncio que o cumprimenta com uma indiferença digna do tempo. A cidade ficou agora definitivamente para trás e M. nada como uma criança no princípio do Verão. Na margem, o automóvel envolto em chamas despede-se para sempre de uma história que termina.

quinta-feira, setembro 11

O pessimista céptico

E então parece que lhe disseram que o melhor ainda estava para vir. Tretas, pensou. O que está por vir é sempre o pior. Mesmo assim, ficou à espera. Nunca se sabe.

terça-feira, setembro 9

Poema


De la mujer tendida


Verte desnuda es recordar la Tierra,
la Tierra lisa, limpia de caballos.
La Tierra sin un junco, forma pura
cerrada al porvenir: confín de plata.

Verte desnuda es comprender el ansia
de la lluvia que busca débil talle,
o la fiebre del mar de inmenso rostro
sin encontrar la luz de su mejilla.

La sangre sonará por las alcobas
y vendrá con espadas fulgurantes,
pero tú no sabrás dónde se ocultan
el corazón de sapo o la violeta.

Tu vientre es una lucha de raíces,
tus labios son un alba sin contorno.
Bajo las rosas tibias de la cama
los muertos gimen esperando turno.

Federico García Lorca

quinta-feira, setembro 4

Depois de voltar

Os dias passam devagar, o sol brilha, a comida é excelente e nunca acaba, o mar está por todo o lado, tenho quase uma dezena de companheiros de viagem - uns conheço desde que nasci, outros conhecem-me desde que nasceram -, a língua é fácil e acessível e de um modo geral percebo tudo o que me dizem, não preciso de guias, à noite dorme-se que nem uma pedra numa cama confortável e feita de lençóis que cheiram a fresco. Pois, estou em casa. Melhor, estou no Sul. Melhor ainda, estou no Alentejo com vista para o Algarve. Aí fica o testemunho de alguns dos lugares que não me canso de visitar.

Praia da Amoreira

Praia da Arrifana

Tavira

Cacela Velha

Pego das Pias, Odemira

Cascata, Vila Nova de Milfontes

Mergulho no Rio Mira, Vila Nova de Milfontes

(Nota: todas as fotos são da autoria de Carolina Ladeira. A preguiça é tanta que já nem dá para pegar na máquina...)

sexta-feira, agosto 29

Diários do Médio Oriente 35

Voltar

Ben Gurion International Airport, Tel Aviv, Israel

Acordo cedo, apanho o autocarro para a estação central de Jerusalém e novo autocarro em direcção a Tel Aviv. A viagem leva menos de uma hora e mal saio outro autocarro espera para me levar ao terminal internacional. Faltam quatro horas para a descolagem, mas demoro mais de duas a passar o controlo de segurança (outra vez o visto da Síria...). Já dentro do avião, pego no primeiro jornal que consigo ler em mais de três semanas. Percebo que alguns dias antes aconteceu um grande acidente no aeroporto para o qual me dirijo agora: Barajas, Madrid. Penso no ditado que diz que um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar. Pelo caminho, sabe bem estar rodeado de gente que fala uma língua que finalmente percebo. Tenho a sensação que posso comunicar outra vez, que o mundo já não é um lugar tão difícil de entender. O Médio Oriente acaba aqui. Começa uma das melhores partes de qualquer viagem: o regresso.

FIM

Diários do Médio Oriente 34

Da arbitrariedade da religião

É comum considerarmos que a religião é algo de pessoal, uma escolha de cada indivíduo que se relaciona com a sua crença, a sua fé, a sua ideia ou sentir pessoal acerca de um deus ou de deuses. Percorre-se o mundo e descobrimos que esse mesmo sentir individual encontra uma combinação muitas vezes simétrica com dezenas de milhares de outros indivíduos. A Turquia é, na sua grande maioria, um país muçulmano, acontecendo o mesmo com a Síria, a Jordânia, o Egipto e tantos outros, vizinhos ou não da mesma geografia. Já Portugal é normal considerar como país cristão católico, a Índia como hinduísta – para uma parte muito significativa da sua população –, o Tibete como núcleo do budismo, Israel como defensor do judaísmo, a Grã-Bretanha como advogada do cristianismo protestante, a Rússia como bastião central do cristianismo ortodoxo. Todas estas considerações estão tão correctas como o senso comum e a sua verdade ultrapassa quaisquer laicidades que possam prevalecer neste ou naquele estado. Assim, parece existir algo que diz respeito às religiões que ultrapassa a mais simples das fés ou a mais pura das crenças. A religião, surgindo assim tão claramente associada a este ou aquele estado, torna-se algo de geográfico, de político, de social, de cultural. Basta observar as realidades dos países acima referidos e encontraremos concerteza diferenças significativas nos modos de vida, nos relacionamentos entre pares e, sobretudo, nas línguas, sem prejuízo da globalização crescente da vida moderna.

Posto isto, importa observar que antes de escolher uma religião, um dado indivíduo nasce em algum lugar e que esse lugar, mal ou bem, não é obviamente escolha sua. Também não depende de si a natureza religiosa ou cultural do lugar que o vê nascer. Não sou português porque o escolhi ser e ainda que posteriormente escolhesse não o ser não seria escolha minha ter-me sido dada a oportunidade de escolher. Em suma, a nacionalidade é arbitrária. Logo, também o é, mais uma vez (não me canso de o afirmar) na grande maioria dos casos, a matriz cultural e religiosa do individuo. Quando o imperador romano Constantino fez do cristianismo a religião oficial do império romano, esse facto viria a ter consequências para todos os que vivessem ou viessem a nascer no espaço desse império, mesmo depois desse império cessar a sua existência. Porventura, este facto histórico influencia mais a minha vida em matéria religiosa – e, logo, cultural e social – que propriamente as minhas escolhas individuais.


Por tudo isto, parece-me ser a escolha de viver um ou mais deuses desta ou daquela maneira algo que comporta em si uma forte componente de arbitrariedade. Não a vivência de um deus ou deuses em si mesma, como uma coisa do domínio da fé e do espiritual, antes a vivência desse mesmo deus ou deuses integrada num certo quadro religioso. Quando alguém diz que professa a religião que deriva da palavra de Jesus Cristo e outro afirma a pés juntos que a última palavra é a do profeta Maomé, convém ter em atenção que provavelmente um nasceu num dado lugar e outro nasceu noutro lugar qualquer.

Acresce a isto o facto de a religião ser também, e muito, matéria de transmissão entre gerações e culturas, de ser algo feito de rituais que passam de pais para filhos. Uma vez mais, também o facto de nascermos no seio deste ou daquele aglomerado de parentes é fruto do acaso. Ser português, ter nascido em Lisboa, ser oriundo de uma certa família alentejana, tudo são factores que contribuem decisivamente para a minha identidade, mas não é algo prévio à minha pessoa, algo que, digamos, já estivesse “lá” antes de eu nascer. Seguramente, não é o tipo de circunstância que em algum momento tenha sido alvo do meu livre arbítrio. O que depois se constitui em mim como divino ou não, como espiritual ou não, é algo de pessoal e não é matéria de discussão racional. O que de mim faço não é arbitrário, ainda que possa ser arbitrário o quadro que me rodeia. Perante isto, “tolerância” torna-se uma palavra quase tautológica e “diferença” e “responsabilidade” conceitos tão óbvios que quase esvaziariam de conteúdo o termo “julgamento”.

segunda-feira, agosto 25

Diários do Médio Oriente 33

O último dia

Kibbutz Kalia, Mar Morto

Para acabar, o ponto mais baixo do planeta e um mar tão salgado que é impossível mergulhar. Fica-se simplesmente a boiar na condensação de sólidos minerais e a sentir o calor acumulado. O dia, enfim, passa-se de barriga para o ar e a conversar com viajantes de circunstância. Aos poucos, chega uma sensação de fim e instala-se a calma de saber que falta muito pouco para voltar a casa.

domingo, agosto 24

Diários do Médio Oriente 32

Monte das Oliveiras, Jerusalém

Igreja de Todas as Nações

Na encosta do monte, os cemitérios estendem-se a perder de vista, com milhares de túmulos. Neste lugar começará a ascensão das almas no Dia do Juízo Final. Logo, toda a gente quer estar o mais perto possível...

A cidade velha de Jerusalém vista do alto do monte.

A cúpula da Igreja de Santa Maria Madalena (Russa Ortodoxa)

O deserto da Judeia, a vista do lado do Monte das Oliveiras oposto a Jerusalém

sábado, agosto 23

Diários do Médio Oriente 31

Cúpula da Rocha
Esplanada das Mesquitas (Monte do Templo),

Jerusalém


Diários do Médio Oriente 30

Muro das Lamentações, Jerusalém








quinta-feira, agosto 21

Diários do Médio Oriente 29

Pequena interrupção

Aproxima-se o regresso e, como sempre, tudo anda depressa demais. A jornada continua, mas interrompem-se muito brevemente os "posts". O relato do que resta desta viagem segue dentro de momentos.

quarta-feira, agosto 20

Diários do Médio Oriente 28

Via Dolorosa, Jerusalém

Jerusalém é uma cidade como nenhuma outra. Podemos ser cristãos, muçulmanos, judeus, agnósticos, budistas ou ateus. Não importa. A cidade respira algo de único a que não podemos ficar alheios. Um dos percursos obrigatórios é a Via Dolorosa, o caminho de Jesus Cristo fez desde o momento em que recebeu a cruz até ao seu túmulo final. O caminho está marcado com 14 estações (é mesmo esse o nome que recebem) que marcam outros tantos momentos curciais desse dia. Retiram-se deste texto os "supostamente", os "diz a lenda que" ou "há quem acredite que". Essas considerações não vêm agora ao caso. O percurso é o que é e não é coisa menor, independentemente da crença ou não-crença de cada um. E percorrê-lo é sentir que a fé dos homens e mulheres é algo de real e presente e que está além de considerações racionais.



Primeira estação: Arco Ecce Homo, o lugar onde Cristo inicou a sua caminhada.


Segunda estação: Igreja Franciscana da Condenação e Capela da Flagelação (na foto), onde Cristo tomou a cruz e foi flagelado, recebendo a coroa de espinhos.


Terceira estação: uma pequena capela polaca, construída após a Segunda Guerra Mundial marca este lugar onde Jesus terá caído pela primeira vez.

Quarta estação: uma capela mínima, quase abandonada marca o lugar onde Cristo encarou a sua mãe por entre a multidão. A imagem ao fundo da capela (na foto) retrata esse momento.


Quinta estação: os escritos à volta da porta mostram o nome de Simão, sendo este o lugar onde o Cireno terá ajudado Cristo a carregar a cruz.


Sexta estação: um pilar junto a uma porta apresenta o nome de Verónica, que neste local limpou a face de Jesus.


Sétima estação: escondida no meio de um dos maiores bazares de Jerusalém, este local marca o momento em que Cristo terá caído pela segunda vez.


Oitava estação: Jesus diz a uma mulher que chore por ela mesma e pelos seus filhos, não por ele.


Nona estação: os restos de uma coluna na Igreja Cóptica marcam o local onde Jesus caiu pela terceira vez.


Décima estação: já dentro da Igreja do Santo Sepulcro, a capela franciscana marca o local onde Cristo foi despojado das suas roupas.


Décima primeira estação: Mesmo ao lado da capela Franciscana, uma capela Grega Ortodoxa marca o local onde Jesus foi crucificado. Há gente de joelhos rezando alto, outras beijam o chão por baixo da imagem, uma mulher e um rapaz estão completamente deitados no chão e choram convulsivamente. Nunca na minha vida vi algo assim.


Décima terceira estação: o lugar onde o corpo de Jesus terá sido colocado depois de retirado da cruz e entregue a sua mãe. Dezenas de pessoas ajoelham-se junto à pedra húmida e beijam-na, tocam-lhe com as mãos, passam roupas, pousam a testa, tudo entre lágrimas e orações.


Décima quarta e última estação: pelo tecto da nave central da igreja entra a luz que marca o lugar do Santo Sepulcro.

terça-feira, agosto 19

Diários do Médio Oriente 27

A caminho de Jerusalém


Fronteira. A Jordânia a ficar para trás, a mais curta estadia desta viagem. A passagem faz-se entre Aqaba e Eilat, a primeira cidade israelita do outro lado, nas costas do Mar Vermelho.


Ainda na terra de ninguém, o espaço que separa os dois países, paro para esta fotografia. A máquina está dentro da mochila, por isso tenho de a pousar no chão e abri-la. Imediatamente, dois guardas gritam-me como se perguntassem o que estou a fazer, como se fosse tirar uma metralhadora ou um bomba. Como estou prestes a perceber, existe uma verdadeira obsessão com a segurança neste país.

Mais à frente, está o primeiro posto de segurança. Mochila para o raio-x, tudo fora dos bolsos, perguntas, mochila aberta, tudo para fora, mais perguntas. Continuo para o controlo de passaporte.

Entrego o passaporte e então começam os problemas. Para além do visto da Jordânia, há mais dois que levantam suspeitas. Marrocos e, o pior de todos, Síria. Mais perguntas. Conheço alguém na Síria, o que estive lá a fazer, quanto tempo lá estive, conheço alguém em Israel, como se chama o meu pai, como se chama o meu avô. Estou nisto quando se aproxima outro segurança que me chama de parte. Educadamente, diz-me que o meu passaporte vai ser verificado, que tenho de aguardar. Apercebo-me que outros turistas estão a passar sem grandes problemas. Pergunto o que se passa. Óbvio, não me podem dizer, mas sempre me adiantam que isto vai demorar. Levam-me para uma sala onde posso estar mais "confortável", um pré-fabricado de janelas opacas, 4 ou cinco cadeiras e uma mesa, ar condicionado. Sala de interrogatório é o que me ocorre. Fico ali não sei quanto mais tempo. Entra outra agente e mais perguntas. Diga-me todos os países onde esteve nos últimos dez anos, porque não tenho reserva em nenhum hotel, qual o meu itinerário em Israel, estou a pensar visitar zonas árabes ou palestinianas. Sai. Passa mais uma hora até que finalmente mesma agente regressa com o meu passaporte. Pergunta-me se quero que carimbe um papel que tenho de preencher ou o passaporte. É que, diz-me, como parece que viajo tanto o melhor é não carimbar o passaporte, dado que a partir desse momento existem pelo menos 10 países onde não poderei entrar. Papel carimbado, sigo viagem. Tanta coisa por um bocado de terra...

Apanho o autocarro em Eilat, o que proporciona a rara experiência de atravessar o deserto do Negev ao entardecer.

Mais perto de Jerusalém, o Mar Morto faz a sua aparição mesmo à beira da estrada. Posso nunca ter estado no Evereste, mas acabo de passar pelo ponto mais baixo do planeta, e sem o auxílio de oxigénio. A chegada à cidade santa acontece já a noite caiu.