quinta-feira, abril 19

Diários do Deserto 6

“Acasos” e partida

A manhã do segundo dia nasce mais harmoniosa, sem chuva e sem a confusão que Marrakech revelou na noite anterior. Abandono a pensão e as vielas que circundam a Djemaa el-Fna e procuro um sítio para tomar o pequeno-almoço. Problema: não consigo levantar dinheiro. Nem Visas, nem Mastercards, nem “electrons”. Nada. Preocupo-me? Nem por isso – já se sabe como é inútil tal coisa quando se está longe de casa com uma mochila de 10 quilos nas costas – mas é preciso resolver a questão, de outro modo arrisco-me seriamente a ficar “apeado” algures no meio das areias. Não posso partir para o deserto sem certezas quanto ao regresso e pouco mais de 1000 dirhams no bolso. Porém, a adversidade volta a mostrar a sua outra face, a face da oportunidade, a música do acaso que me embala o destino. Ao passar por mais uma máquina ATM, vejo três mulheres jovens que conversam. Não consigo ouvir ou perceber que dizem ou conversam, mas reparo que uma delas tem na mão um cartão de um banco português. Sem hesitar, aproximo-me e pergunto se estão com o mesmo problema que eu. Não estão. Só que, em terra de estranhos, a língua que nos viu nascer traz-nos sempre mais perto daqueles que com a mesma língua nasceram. Por isso, talvez por isso, sou convidado a juntar-me ao seu pequeno-almoço. Virginie e Manu são irmãs nascidas no Canadá e vividas no Porto. Sandra tem o Porto nascido em cada palavra que diz, aquele sotaque que a mim, estranhamente, sempre me soou tão belo de tão autêntico. Aceito o convite e uma vez mais, no simples gesto, no simples desvio daquilo a que alguns já se lembraram de chamar destino, fica o rumo de vidas determinado. A conversa corre ao sabor de pão com mel e café “noir” e a decisão não demora muito a ser tomada. O deserto há-de agora ver mais que um português no mesmo dia. Javier, Manu, Virginie e Sandra são assim oficialmente as quatro primeiras pessoas com quem me sentei a conversar desde que aqui cheguei, ainda não passaram 24 horas. Seguem todas comigo para o calor das dunas. São estas pessoas que comigo partem, companheiros não anunciados mas não menos bem-vindos. A confusão de Marrakech fica para trás, entregue ao fluxo das gentes que por ali se precipitam e vivem e morrem e que constroem uma cidade. O horizonte abre-se ao cenário glorioso das montanhas do Atlas, o derradeiro muro que me separa da imensidão.

domingo, abril 15

Diários do Deserto 5

O início da aventura

Por entre a confusão das ruas de Marrakech, caminho lentamente ao acaso. Há vendilhões e turistas, gentes que passam apressadas, umas para parte alguma, outras para parte incerta. Chove. No entanto, não passa muito tempo até que a chuva se detenha e o sol surja esparso por entre um arco-íris que atravessa os céus da cidade. É uma visão de idílio entrecortada pelo caos dos motores e das vozes e dos gritos que enchem todo o espaço ao redor. Caminho ao acaso e penso no que fazer, como farei para chegar até esse lugar que aqui me trouxe, como hei-de de fazer para tomar o rumo dessa desconhecida fronteira que é o deserto. Estranhamente, porém, parece-me que aguardo. Nada decido, a nada me comprometo. Deleito-me na tranquilidade que me tomou todos os sentidos desde que aqui cheguei, permanecendo imerso na velocidade do universo mas sem o contrariar ou apressar, antes deixando-me arrastar pelo tempo certo dos elementos.

Caminho um pouco mais e por entre encantadores de serpentes imaginárias e carrinhos coloridos que vendem sumo de laranja, desemboco uma vez mais na praça Djemaa el-Fna, esse lugar que, mais que o centro de uma cidade, parece ser o centro de milhares e milhares de vidas que por aqui se cruzam. Decidido a contemplar o movimento, procuro uma esplanada onde possa beber o primeiro café em terras de África. Sento-me e deixo o corpo encostar-se de encontro à madeira escura da cadeira que me assenta como um colo. Não passam mais de dois, três minutos até que sinta um toque no ombro e uma voz que se me dirige em tom afável. A voz, primeiro em espanhol e depois num inglês quase macarrónico, vem de um homem grande e de rosto macio. Tem uns olhos redondos e escuros, tão expressivos que penso não poderem pertencer a um homem vulgar. O sorriso e a beleza ainda assim não escondem a marca de um sofrimento que se adivinha mas que é ainda cedo demais para entender. Está sozinho e é sozinho que viaja, a primeira pessoa com quem falo desde que cheguei a Marrocos e a Marrakech e a África. Diz “Javier” e estende a mão para que troquemos as apresentações. A sua primeira frase, todavia, não é nem feita de nomes nem de quaisquer convenções. É uma frase que me faz sorrir e entender o porquê de haver tanto sentido no acaso e qual afinal a razão nada racional de sentir tanta tranquilidade desde que aqui cheguei. “Estou à procura de alguém para ir ao deserto,” diz-me como se soubesse, como se tivesse estado aqui sempre à minha espera, como se nada mais houvesse na sua vida além desta missão de aqui estar à espreita do meu destino. Sorrio tanto de surpresa como de certeza. A roda do universo terá iniciado o seu inexorável movimento. A aventura está prestes a começar.

Diários do Deserto 4

Coisas que não cabem em palavras

Marrakech


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quinta-feira, abril 12

Diários do Deserto 3

Viagem a solo

Ao chegar, é inevitável deparar-me com a solidão em que me encontro por ora. Viajo sozinho, estou só. Primeiro que tudo há o silêncio. O silêncio em mim, o silêncio de tudo existir à minha volta sem que uma palavra me cruze os lábios. Os sons ao redor percebem-se mais, são mais intensos e presentes porque não há som em mim. Mas não é só na cacofonia dos elementos que é perceptível a ausência de companhia. O mesmo se passa com as cores e com os cheiros. Tudo o que me cerca cerca-me mais, faz-me sentir mais como a parte de um todo. Depois há a calma de caminhar, de percorrer os lugares ao ritmo único de mim mesmo. Penso e sinto e percebo que também assim deveria ser na vida, ter o tempo todo e ser em mim apenas o que sou. O tempo. O tempo para olhar, o tempo para sentir, o tempo para escrever sobre o que sucede e assim cimentar a certeza do que se viveu, o tempo a que se perde a conta de tão devagar que passa.

Volto ao silêncio. Dele resulta a ausência de julgamento, a não verbalização de quaisquer juízos de valor. É esse silêncio que me faz receber em cheio o mundo, com a força de ser meramente aquilo que é. Fernando Pessoa escreveu um dia, no meio dos seus desassossegos, Que me pode dar a China que a minha alma não me tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza da minha alma sou eu, e eu onde estou, sem Oriente ou com ele. Viajar a solo é a junção de duas dádivas, daquilo que nos é dado pela “China”, pela Índia ou por Marrocos e daquilo que a nós mesmos nos damos por estarmos tão perto de nós.

terça-feira, abril 10

Diários do Deserto 2

Primeiras impressões – Casablanca, manhã do dia 1 de Abril

Não percebo nada do que as pessoas conversam à minha volta.

Domingo talvez seja um bom dia para chegar a Casablanca. Tudo calmo e não há sobrelotação de pessoas em parte alguma.

Sinto-me espantosamente tranquilo.

Os comboios são muito confortáveis, mas sobretudo lembram-me os da minha infância na Linha de Sintra.

Já não me lembrava de como o meu francês pode ser tão mau.

Casablanca parece ser um amontoado de casas velhas e prédios sujos, mas é certo que só vi a cidade da janela do comboio.

Os homens vestem uma espécie de camisa de noite grossa e com um capuz que me dá a impressão de ser muito confortável e prático.

Estamos em terra muçulmana, logo, já se sabe, mulheres de cabeça tapada e afins. Todavia é curioso ver que há muitos homens que carregam os filhos ao colo e que são eles que mais parecem interagir com as crianças.

Está frio, por isso, para já, lá se foi o mito do calor em África…

Sinto que venho visitar antepassados. As linhas nos rostos, a pele, os olhos, sendo diferentes dos meus, transmitem-me uma vaga sensação de familiaridade que não consigo bem entender ou classificar.

A primeira fotografia que não tirei mas gostava de ter tirado: um bairro degradado, tipo shanty town, casas rasteiras e chão enlameado, lixo encostado aos muros. Por cima de tudo isto, centenas de antenas parabólicas todas viradas na mesma direcção, a Este.