“Acasos” e partida
quinta-feira, abril 19
Diários do Deserto 6
domingo, abril 15
Diários do Deserto 5
Caminho um pouco mais e por entre encantadores de serpentes imaginárias e carrinhos coloridos que vendem sumo de laranja, desemboco uma vez mais na praça Djemaa el-Fna, esse lugar que, mais que o centro de uma cidade, parece ser o centro de milhares e milhares de vidas que por aqui se cruzam. Decidido a contemplar o movimento, procuro uma esplanada onde possa beber o primeiro café em terras de África. Sento-me e deixo o corpo encostar-se de encontro à madeira escura da cadeira que me assenta como um colo. Não passam mais de dois, três minutos até que sinta um toque no ombro e uma voz que se me dirige em tom afável. A voz, primeiro em espanhol e depois num inglês quase macarrónico, vem de um homem grande e de rosto macio. Tem uns olhos redondos e escuros, tão expressivos que penso não poderem pertencer a um homem vulgar. O sorriso e a beleza ainda assim não escondem a marca de um sofrimento que se adivinha mas que é ainda cedo demais para entender. Está sozinho e é sozinho que viaja, a primeira pessoa com quem falo desde que cheguei a Marrocos e a Marrakech e a África. Diz “Javier” e estende a mão para que troquemos as apresentações. A sua primeira frase, todavia, não é nem feita de nomes nem de quaisquer convenções. É uma frase que me faz sorrir e entender o porquê de haver tanto sentido no acaso e qual afinal a razão nada racional de sentir tanta tranquilidade desde que aqui cheguei. “Estou à procura de alguém para ir ao deserto,” diz-me como se soubesse, como se tivesse estado aqui sempre à minha espera, como se nada mais houvesse na sua vida além desta missão de aqui estar à espreita do meu destino. Sorrio tanto de surpresa como de certeza. A roda do universo terá iniciado o seu inexorável movimento. A aventura está prestes a começar.
quinta-feira, abril 12
Diários do Deserto 3
Viagem a solo
Ao chegar, é inevitável deparar-me com a solidão em que me encontro por ora. Viajo sozinho, estou só. Primeiro que tudo há o silêncio. O silêncio em mim, o silêncio de tudo existir à minha volta sem que uma palavra me cruze os lábios. Os sons ao redor percebem-se mais, são mais intensos e presentes porque não há som em mim. Mas não é só na cacofonia dos elementos que é perceptível a ausência de companhia. O mesmo se passa com as cores e com os cheiros. Tudo o que me cerca cerca-me mais, faz-me sentir mais como a parte de um todo. Depois há a calma de caminhar, de percorrer os lugares ao ritmo único de mim mesmo. Penso e sinto e percebo que também assim deveria ser na vida, ter o tempo todo e ser em mim apenas o que sou. O tempo. O tempo para olhar, o tempo para sentir, o tempo para escrever sobre o que sucede e assim cimentar a certeza do que se viveu, o tempo a que se perde a conta de tão devagar que passa.
Volto ao silêncio. Dele resulta a ausência de julgamento, a não verbalização de quaisquer juízos de valor. É esse silêncio que me faz receber em cheio o mundo, com a força de ser meramente aquilo que é. Fernando Pessoa escreveu um dia, no meio dos seus desassossegos, Que me pode dar a China que a minha alma não me tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza da minha alma sou eu, e eu onde estou, sem Oriente ou com ele. Viajar a solo é a junção de duas dádivas, daquilo que nos é dado pela “China”, pela Índia ou por Marrocos e daquilo que a nós mesmos nos damos por estarmos tão perto de nós.
terça-feira, abril 10
Diários do Deserto 2
Primeiras impressões – Casablanca, manhã do dia 1 de Abril
Não percebo nada do que as pessoas conversam à minha volta.
Domingo talvez seja um bom dia para chegar a Casablanca. Tudo calmo e não há sobrelotação de pessoas em parte alguma.
Sinto-me espantosamente tranquilo.
Os comboios são muito confortáveis, mas sobretudo lembram-me os da minha infância na Linha de Sintra.
Já não me lembrava de como o meu francês pode ser tão mau.
Casablanca parece ser um amontoado de casas velhas e prédios sujos, mas é certo que só vi a cidade da janela do comboio.
Os homens vestem uma espécie de camisa de noite grossa e com um capuz que me dá a impressão de ser muito confortável e prático.
Estamos em terra muçulmana, logo, já se sabe, mulheres de cabeça tapada e afins. Todavia é curioso ver que há muitos homens que carregam os filhos ao colo e que são eles que mais parecem interagir com as crianças.
Está frio, por isso, para já, lá se foi o mito do calor em África…
Sinto que venho visitar antepassados. As linhas nos rostos, a pele, os olhos, sendo diferentes dos meus, transmitem-me uma vaga sensação de familiaridade que não consigo bem entender ou classificar.
A primeira fotografia que não tirei mas gostava de ter tirado: um bairro degradado, tipo shanty town, casas rasteiras e chão enlameado, lixo encostado aos muros. Por cima de tudo isto, centenas de antenas parabólicas todas viradas na mesma direcção, a Este.
