5.10.09

Escrever sobre quê?

Hoje a acordei a pensar que dois meses são demais. Dois meses de silêncio, nem uma linha que se veja na amostra do ciberespaço blogarístico. Então vai daí, toca de levantar o corpo depois da ressaca da noite e vir para o computador escrever qualquer coisita que ainda possa alegrar o dia.

Mas, escrever sobre quê? O país está em stand-by, toda a gente à espera do que Sócrates vai fazer enquanto Cavaco perscruta incessantemente o seu próprio ciberespaço. E Manuela, será que fica, será que vai? Resistirá Portas ao peso de dois ou três submarinos? Louçã e Jerónimo poderão algum dia ser amigos? Não, não é sinopse nem marketing de telenovela. É o país real e por isso mesmo, escrever sobre quê?

O Benfica vai de vento em popa, mas quase toda a gente sabe que sou do Sporting, por isso futebol nem falar, quanto mais escrever.

Passemos à filosofia de circunstância, portanto. A crise de valores, os divórcios em barda, as famílias disfuncionais e as palmadas pedagógicas. Toda a gente tem um amigo que tem uma amiga que se separou e toda a gente tem uma amiga que tem um amigo com um filho com problemas na escola ou um amigo com uma filha numa escola com problemas. Ou então ninguém tem amigos. Li no outro dia no jornal que os portugueses estão cada vez mais sós, que existem cada vez mais e mais jovens a viverem sozinhos. Posto isto, a crise de valores é relativa, na medida em que para que um valor tenha importância é necessário que um ser humano aja sobre outro e há cada vez menos interacção entre as pessoas. E esta é uma péssima conclusão, mas não deixa de ser filosofia de circunstância.

Então, dizem, e a literatura? Que é da poesia e da prosa estilística em tom autobiográfico? Afinal, tem sido essa uma das pedras de toque essenciais deste blog e, numa sondagem não encomendada pela Universidade Católica, seriam esses textos que a maioria provavelmente referiria como os que mais lêem neste nicho de ciberespaço pessoal. Pois. Mas, que querem? Ando pragmático demais, pouco dado aos devaneios necessários à ficção sentimental. É da vida. Tanto para fazer e tão pouco tempo. O trabalho e as farras são um equilíbrio difícil de manter, mais a mais são coisas que nos sugam demasiado para dentro da vida real.

Em conclusão, sou capaz de escrever sobre coisa nenhuma. Não é assim tão difícil encher uma página A4 com uma série de considerações que não fazem mais que partilhar a angústia do escritor em branco. E vá lá, não se queixem – não sei sobre que escreva, mas sempre têm qualquer coisita que se leia.

11.8.09

Capítulo Terceiro

Eugénia discute com o marido. Discutem todos os dias, mesmo antes de fazerem amor. Todos os dias os gritos e impropérios, as promessas de se desamarem para sempre. E depois o suor, o gosto do peito e a certeza de que ainda não é desta que a vida se acaba. Não se lembram se foram sempre assim, nem se recordam de algum dia terem sido diferentes. Ela, de avental e depois da praça e do peixe; ele, de camisa aberta até ao umbigo e calças enroladas por cima dos joelhos, a boca que cheira a rede e a lodo. E todos os dias, Eugénia esperando o marido, António Manuel Charrinho, Tó Fateixa para os companheiros de mar alto.

(certa vez, dizem, certa vez ficou de pé preso na fateixa e foi ao fundo com o ferro em plena tempestade na barra. Esteve oito minutos debaixo de água antes de voltar à superfície, o corpo quase exangue e o peito respirando a custo. Ninguém, nem o Tó Fateixa, sabe como foi que se soltou da morte. Dizem que foi um anjo.)

Só que hoje Eugénia não foi para a praça. Está farta de enganos. Casou fez anteontem vinte anos. Dezanove anos, portanto, tinha Eugénia quando se deixou prender de amores por um homem seis anos mais velho, a pele então como hoje feita em rugas pelo sol e pelo sal da maré vaza. Eugénia contra a vontade do pai e das irmãs e hoje a pensar porquê. Hoje pensa que há-de vingar-se.

(a brasileira, a galdéria de perna feita a ver se fila os homens junto às redes do cais, mesmo à saída das traineiras que voltam da faina.)

Eugénia aqui. Tó Fateixa subindo a rua, a casa quieta em prenúncio de desgraça. Sentem os dois o cheiro do mar que se agarra ao vento da manhã. Eugénia aqui. Sabe que o coração já não é só seu. Não é só seu o corpo que vem subindo a rua, o cambalear ligeiro do vinho que se mistura com o gosto das redes e do lodo. À espera, junto à porta de ferro e vidro grosso, Eugénia encostada na porta capaz de esconder segredos. Porta aberta aguardando a chegada da vingança.

Eugénia ouve-lhe os passos, primeiro, depois a respiração e o cheiro do perfume barato escondido pelo suor do mar. Tó Fateixa encosta a mão na parede da casa e sente-a quente, o branco da cal lembrando o dia passado longe da terra. Vê a porta e pára antes do primeiro passo. Estranha a porta assim, escancarada madrugada adentro, um convite à maldade dos homens.

(onde está a mulher? Mulher, onde estás?)

Mas a casa quieta, um sossego de silêncio preso nas redes e no lodo. Tó Fateixa é homem de mar, conhece a calma antes da tempestade, este silêncio que lhe aguça os sentidos. Só que Tó Fateixa não quer acreditar. Esta é a sua casa, o seu lugar, a mulher que é também sua, a dona do coração sem corpo. Vai devagar, mas quando dá o passo que o traz dentro da casa

(a sua casa. Lembra-se da noite primeira, o casamento e o cheiro de Eugénia a redes e conchas e nesse instante talvez Tó tenha dito de si para si talvez seja isto o amor.)

quando dá o passo que o traz dentro da casa é tarde demais. A porta já não tem segredos, corre para ele com um estrondo. O vidro e o ferro invadem-lhe a pele numa desilusão de sentidos. Tó Fateixa ainda vai a tempo de escutar a gargalhada de Eugénia que chora.

(filha da puta, que me matas!)

Lá fora é madrugada ainda e é ainda o silêncio. Mas Eugénia só coração.

4.8.09

Retrato de um coração

Ontem choveu. E porque ontem choveu, vejo daqui o campo transpirando verde. O vapor na lonjura é o hálito da madrugada, o campo que canta alvoradas de silêncio.

Vejo daqui o campo e vejo que ontem choveu porque não chove já. Ao fundo, na linha do céu, o campo fita-me na quietude dos moinhos sem vento. Está tão sossegado o ar que se Quixote aqui estivesse não teria com quem lutar. Só o verde do campo me anuncia as lágrimas escorridas das nuvens. Olho este verde e lembro que outrora esta terra foi minha, que aqui encontrei o amor, que neste lugar foi que para sempre esqueci o medo. Que foi este o lugar do incêndio, o lugar do fogo que apagou o verde. Não este, mas outro, feito de ventos saltando por cima das árvores, feito de gritos caídos do céu sem lágrimas.

Só que esse tempo passou. E agora apenas este verde calmo e ao centro do verde o vermelho que se vê de noite, um ribeiro que nunca se confunde com o céu. É o meu sangue. Ficou do coração que um dia morreu sobre este campo. Depois do medo para sempre esquecido, depois do verde para sempre apagado pelo fogo.

Olho o campo e do fundo do campo vem a voz. Vem o grito que faz nascer o sol. É a voz da mulher que passa e grita que é louca e diz que importa que ontem tenha chovido. Chega perto da janela e o vestido amarelo colado nas coxas desperta o desejo de me ver enfim sem o fogo que apagou o verde. A voz tem o cabelo agarrado à face pela água que ontem escorreu como lágrima. E grita e volta a gritar que importa que tenha chovido, que importa o fogo, para que quer o universo saber do rio de sangue correndo onde outrora havia um coração. A voz ri alto e ri à gargalhada e da janela vejo o sol inchar como se prendesse a respiração. A mulher cola-me a face às coxas e o cheiro do sexo levanta o vapor da madrugada. O verde perde-se no amarelo vivo que vem do sol e se despenha no vestido da mulher. A voz. O incêndio. A chuva. Que importa todo este silêncio?

(o meu coração onde está? não o encontro nas coxas da mulher e o rio correndo vermelho ainda por cima do verde apagado pelo fogo.)

(o coração que morra, deixá-lo morrer!)

A voz grita, grita o vestido e o sol a inchar, a inchar e já não consigo ver o campo, apenas o cheiro do sexo saltando por cima das árvores, sem o coração para sempre morto na torreira do sol. O sol que explode e inunda a janela de chamas. Outra vez o fogo. A voz rindo, gritando alto até se extinguir no silêncio, o verde que há-de voltar a nascer e há-de voltar a morrer. E o campo a procurar o coração, sem saber que se perdeu por entre os gritos.

30.7.09

Pediram-me que escrevesse sobre o Alentejo

Pediram-me que escrevesse sobre o Alentejo. Queriam que falasse dos montes ao fundo do horizonte que são ondas de mar ao princípio da terra. Que enchesse de tinta as planícies entrecortadas de fogo. Disseram-me que escrevesse sobre o Alentejo, que pusesse no papel a imagem do infinito onde uma só árvore habita o final da tarde. Loucos. Não entendem que o Alentejo é silêncio, não é palavra. É a música que toca baixinho na ausência da voz. O Alentejo, disseram-me. Pinta o calor sobre as páginas de um caderno, canta o vento solto, a quimera eterna de homens e mulheres no caminho para casa. E gritam e riem e pedem-me que escreva sobre o Alentejo porque querem sentir a força da terra feita na palavra. Loucos. Não entendem que o Alentejo é para se viver e para se morrer. O Alentejo não se escreve.

20.7.09

Consideração sobre o tempo em momento de decisão

O cabelo agarra-se-lhe ao pescoço no suor da espera. Nada tem senão a companhia dos objectos. A mala verde grande pousada como um corpo inerte, enrugada pelo peso que a traz ao chão. Sobre o tampo da mesa, o caderno de notas preto é antes uma tábua de palavras feitas de silêncios. O silêncio do telefone que ela ergue e volta a pousar num ápice de esperança.
(quem espera desespera, dizia o outro. e este idiota que não me diz nada. quem me dera ser o tempo e poder correr, ser eu no meu corpo a dona do tempo e fazer dele um movimento repentino.)
Nada. Estica as pernas por baixo da mesa e as pontas dos dedos lembram bailarinas em exercícios de equilíbrio. As pontas dos dedos que se agitam na desesperança da espera que não encontra o fim ao tempo. E nada. Suspira uma e outra vez, os dedos pousados nos lábios que procuram o dia em que alguém os beije.
(beijou-me uma vez e jurou-me que agora nunca mais. nunca mais a ausência e a incerteza de não ver repetido o beijo. este idiota que não me telefona, que não se lembra que estou aqui ao fim do mundo, à espera de o ver chegar.)
Suspira e então, no assopro dos pulmões, vem-lhe outra vez a vontade de ser mulher. Chega a mão à mala e arranca-a do chão. A cadeira bate com um sopro. O telefone fechado no silêncio, adivinhando o grito que o há-de trazer de volta a casa.
(não espero mais, não espero mais. onde está a vida? sou o tempo, não espero mais. corro na vontade que é minha. quero lá saber do silêncio. o tempo sou eu.)
Hesita. Detém-se um instante, a ver o que a pudesse ter esquecido, a ver se esqueceu o que nunca mais pode lembrar. Nada. A porta abre-se com um estrondo. É o tempo.