Viagem na minha terra 12


12. Romance de Verão
Começa o regresso. Chego à estação de Braga ao início da tarde. Tenho a sensação que vivi um romance de Verão, que me despeço agora mas com aquela esperança de que nos voltaremos a encontrar. Há cidades assim, que nos tocam e não sabemos explicar muito bem porquê, lugares onde chegamos e de onde saímos a pensar que talvez pudéssemos viver aqui, que talvez gostássemos e quiséssemos que esta fosse a nossa cidade. Por mim, saio a fazer contas aos quilómetros que separam Braga de Lisboa. Quanto tempo para aqui chegar? Quanto tempo para aqui voltar?
O comboio sai da estação e eu sei que começou o fim desta viagem. Mas mais que isso, sei que a viagem ainda não acabou. O comboio sai da estação e uma hora depois, voltam os imprevistos. Porto, estação de Campanhã. “Senhores passageiros, devido a avaria, teremos de trocar para o comboio que dará entrada na linha número 9, ao lado desta composição. Pode um raio cair duas vezes no mesmo lugar? Pelos vistos pode. Depois da linha do Minho, repete-se o filme. São outra vez duas da tarde e a única diferença talvez seja que o calor abrandou. Mais que isso, não se repete o tempo de espera. Desta vez passa praticamente uma hora até que o outro comboio chegue e a viagem retome o seu curso. Ainda assim, sorrio baixinho a pensar que esta foi afinal a primeira estação de destino quando esta viagem começou, é justo que tenha de sair aqui quando inicio o regresso.
Rápido, o comboio alfa leva menos de uma hora a chegar a Coimbra. Com o atraso, não tenho de esperar muito até que apareça o outro alfa, vindo de Lisboa. Ao fundo da gare, R. sai de mala azul na mão e a sua maravilha própria de ser. Dou-me conta que não faço a barba há uma semana e que esta roupa que trago no corpo é a última roupa limpa que tenho. Mas não importa. R. é um sorriso só e eu sei que esta deixou de ser a minha viagem, que já não é mais da minha terra que trata a jornada. Daqui em diante seremos nós e terra que também é nossa. O encontro é um romance de Verão e eu sei que começou o fim desta viagem. Mas mais que isso, sei que a viagem ainda agora começou.

Viagem na minha terra 11


11. A surpresa da minha terra
A viagem de Viana do Castelo a Braga é uma hora e meia tranquila. Deve ser a calma antes da tempestade. É preciso percorrer a pé duas ruas inteiras para chegar ao centro, mas uma vez lá chegado, parece que toda a gente está a passar por aqui. Braga é uma explosão de gente, uma surpresa de movimento constante que apaixona. Com excepção para Lisboa e Porto, Braga parece-me a cidade mais europeia e cosmopolita da minha terra. Não são os edifícios históricos, nem o nítido desenvolvimento que a cidade sofreu e sofre ainda. Mais que tudo, são as pessoas. Há gente a caminhar para todos os lados, esplanadas e cafés cheios, um vai e vem que (a minha terra que me perdoe) me faz lembrar o melhor que têm os nuestros hermanos aqui mesmo ao lado. Não é difícil perceber porquê.
Escrevam “cidade portuguesa com mais população jovem” no motor de pesquisa Google e vejam qual é o único resultado concreto que aparece. Lendo um pouco mais, descobre-se que sim, Braga foi há pouco mais de duas décadas considerada a cidade mais jovem da Europa, sendo que nos últimos anos a população da cidade cresceu 25 por cento. Isso nota-se e nota-se bem. São duas da tarde de um dia de semana e as ruas não param. Mas o melhor é que o centro, ao contrário, por exemplo da minha capital, não morre depois das sete ou das oito. Pelo contrário, continua a respirar cada vez mais vida. Pelas ruas, há flores e cachecóis do clube de futebol local, com razão um dos maiores orgulhos da cidade, e que ainda antes de ontem venceu por 3-0 o vice campeão da Escócia. O calor vai apertando, mas ninguém parece desistir de dar vida a este lugar.
Depois do descanso do calor, acabo por me sentar na esplanada do Café Vianna, o principal café da cidade e pelos vistos também o mais antigo. De frente, está uma fonte gigantesca que refresca o ar e dá mais cor à cerveja que se bebe entre conversas em todas as línguas. Fico a olhar para tudo isto como quem olha para uma rapariga bonita que se acaba de conhecer e por quem já sabemos que nos vamos apaixonar. 

Viagem na minha terra 10


10. Voltar a Viana

Entre sombras misteriosas
em rompendo ao longe estrelas
trocaremos nossas rosas
para depois esquecê-las

Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana


Partamos de flor ao peito
que o amor é como o vento
quem pára perde-lhe o jeito
e morre a todo o momento


Ciganos verdes ciganos
deixai-me com esta crença
os pecados têm vinte anos
os remorsos têm oitenta


Letra: Pedro Homem de Melo / Música: Alain Oulman

Viagem na minha terra 9



9. Exercício à alma de viajante

Há dias assim. Todas as viagens têm dias assim. Dias em que os planos saem furados, em que apanhamos comboios para sítios errados, não porque o comboio esteja enganado, mas porque há algo de errado com os sítios. Dias em que falhamos o planeamento dos horários e damos por nós em esperas infindáveis por coisa nenhuma em lugar nenhum, dias que nos doem nas pernas por andarmos demais e por sabermos que podíamos ter andado menos. Dias assim são um exercício à alma de viajante. É nestes dias que sabemos se estamos aptos a deixar fluir a ordem natural das coisas, a aceitar que o que a viagem nos traz é aquilo que tem mesmo de nos trazer. É que dizer que se viaja ao sabor da corrente, na perfeição de cada momento, é muito mais fácil quando a viagem corre bem. O verdadeiro teste é quando corre mal, ou pelo menos quando não corre da forma que seria mais fácil. Vejamos.
O dia começa cedo. Depois do pequeno-almoço a sós com a televisão apagada da Pensão Petisqueira, deixo a cidade-berço a caminho da estação. Quero apanhar o comboio que sai perto das dez e me leva até Lousado, onde deverei chegar pouco mais de meia hora depois. Aí, terei de trocar para novo comboio que me deixará em Nine, onde apanharei finalmente a linha do Minho que me levará até Valença, no limite da minha terra. Foi este o percurso que estudei e que, apesar das trocas, me fará esperar menos, sendo que as trocas acabam por atenuar as esperas, já que enquanto um comboio vai e vem é menos tempo passado em gares que se chamam Lousado e Nine. Chegado à bilheteira, peço então o bilhete para todo o percurso. O senhor por trás do vidro tem, no entanto, uma alternativa melhor. “Não é preciso tanta troca amigo. Vai daqui direito à Trofa e de lá apanha logo a linha do Minho para Valença.” Ena, parece que afinal a internet não supera o engenho humano. O percurso estudado no site da CP dava mais trocas e estações que este senhor por trás do vidro. Muito bem, respondo, mas assim quanto tempo espero na Trofa? “Hora e meia. Dá por lá uma volta e vai à sua vida.” Penso: hora e meia de espera não custa muito, é tempo que aproveito para preparar, sei lá, o próximo post do blog. Aceito e vinte minutos depois estou a caminho.
Quarenta e cinco minutos depois, chego à Trofa, pronto a procurar um café onde possa comer qualquer coisa e passar a hora e meia que me falta. Mas nada feito. Sem preciosismos de qualquer espécie, e com perdão das gentes de semelhante lugar, a Trofa é horrível. Uma estação donde se vê uma igreja emparedada por prédios a fazerem lembrar os subúrbios da Checoslováquia dos anos 70 e um bar na estação onde as águas supostamente frescas estão guardadas dentro de um alguidar com água morna. Demora-me dois minutos a perceber que não vou ficar aqui nem cinco. Decido então seguir para Ermesinde, por onde passei ontem e esperei calmamente num café simpático de frente para uma praça espaçosa. É o que faço, mas isto custa-me quase mais três euros e meia hora a andar de um lado para o outro. De regresso à Trofa, lá apanho finalmente o comboio para Valença. Desta é que é, digo de mim para mim, o estômago a sonhar com o almoço de frente para nuestros hermanos do outro lado da fronteira.
A viagem para Valença corre sem problemas até ao momento em que um estrondo abala o sossego dos passageiros. O vidro de uma das portas é atingido por qualquer coisa arremessada de fora e estilhaça-se em centenas de bocadinhos. A viagem continua, mas quando estamos perto de chegar a Caminha, o revisor irrompe pela carruagem em voz alta: “Meus senhores e minhas senhoras, vamos todos trocar de composição na próxima estação.” Não vale a pena protestar que este comboio era directo e que toda a gente aqui comprou bilhete para ir directo. De Caminha, este comboio não passa. Lá chegados, saio para a gare que estala de calor. São quase duas da tarde e do ar fresco que podia vir do mar próximo nem sinal. Pacientes, todos os passageiros percorrem a pé a distância que nos separa da composição seguinte. Demora quase mais meia hora a partir. Vale que nesta parte da viagem, o mar aparece nas janelas e inunda as vistas com a calma própria das grandes paisagens. Nisto, porém, uma mulher atrás de mim chora ao telefone. “Parecia que Deus adivinhava, mãe. Ainda ontem a fui visitar e hoje a Mafalda telefona-me de manhã. Ó prima, a minha mãe morreu. E eu naquela aflição. Ai Jesus, mãe…” Dois bancos à minha frente, a juventude vai indiferente a caminho do festival de Paredes de Coura. Eu, no meio, dou conta das ironias neste dia de tragédias e comédias.
São quase três da tarde quando o comboio chega por fim a Valença. O que me espera do lado de fora da estação é, no mínimo, inesperado. Apesar de uma avenida simpática, o resto são prédios e mais prédios, dois deles as únicas residenciais perto do centro. Fico a pensar para onde foi o planeamento urbano da minha terra enquanto como finalmente qualquer coisa numa esplanada feita de sombras. Apesar do cansaço, percebo que não vale a pena ficar aqui. A minha terra tem destas coisas, lugares que são o retrato de um país pequeno. Volto à estação. Faltam quinze minutos para o comboio partir de volta. Acabo por decidir, como o poeta, voltar a Viana. A tarde já vai para lá de meio quando vejo o mar ao fundo da avenida. Doem-me os pés, as costas e as pernas, mas sorrio com o deslumbre do azul. Já percebi para que foi isto tudo. Foi para chegar aqui.

Viagem na minha terra 8


8. Viagem pelo meu berço
Consta que foi aqui. Não sei se foi, há até fontes que dizem que não foi, mas isso não parece importar muito aos cidadãos locais. Guimarães é o “berço da nacionalidade”, o lugar onde nasceu e cresceu e viveu o primeiro rei de Portugal. O resto são pormenores literários, coisas para entendidos discutirem em livros e artigos da especialidade. Tudo o mais é orientado em função deste “facto”. Tudo, desde a estátua que fronteia o castelo até ao emblema do principal clube de futebol local. Nesta viagem, Guimarães acontece ao princípio da tarde, já o dia vai longo desde a madrugada do Pocinho e do Douro de ouro. Curiosamente, ou talvez não, ao sair da estação, a primeira avenida que percorro a pé em direcção ao centro é a Avenida D. Afonso Henriques. A avenida desemboca no largo principal às portas do centro histórico, onde a muralha mais famosa de Portugal faz a sua aparição para sempre fotográfica. Mais que isso, o que me chama a atenção é o ambiente de celebração que se vive, as ruas decoradas numa antecipação de festa. Percebo pouco depois que estão prestes a começar as “festas gualterianas”, uma festividade em honra do santo padroeiro da cidade. 
Imbuído de espírito lusitano, viro à esquerda e entro na Rua de Camões, onde está a Pensão Petisqueira, o lugar de pernoita. Toco a campainha e passa algum tempo até que a dona da pensão me venha atender. À minha frente está uma porta automática que a senhora puxa com todas as suas forças, colocando as duas mãos sobre os vidros. Faz-me um sorriso vagamente simpático e convida-me a entrar para uma sala escura onde não está uma única pessoa. As luzes apagadas reforçam o efeito das portadas completamente fechadas, dando um ar no mínimo sinistro a este lugar. Mas o quarto é confortável e fresco, além de barato, pelo que aceito ficar. Mais tarde, virei a descobrir que sou na verdade o único hóspede, tomando o pequeno-almoço em silêncio de frente para uma televisão presa no tecto. Isso, porém, será mais tarde. Para já, desço de novo para a rua à procura de um lugar onde dar descanso ao estômago, já sofrido pelas mais de seis horas de viagem que leva por hoje. Ao sair, a senhora pede-me o favor: “Se voltar a entrar e a sair, bata-me com a porta.” Fico a olhar num instante de silêncio estarrecido. Faço o quê? Bato-lhe com a porta? Dou-lhe com ela na cabeça? Arranco-a das dobradiças ou simplesmente ponho a senhora a jeito de uma valente entaladela. Vale-me a linguagem dos gestos, os braços da senhora que me indicam que afinal o que me é pedido é que feche a porta no trinco. 
Aliviado, volto ao largo onde está a Cervejaria Martins, um balcão corrido onde servem bitoques e acepipes (uma espécie de tapas) bem regados com cerveja gelada. No tecto, encontro cachecóis de pelo menos metade das equipas de futebol nacionais a par com outras tantas internacionais. 
Gosto do ambiente e deixo-me ficar, apanhando conversas e descansando o corpo e a garganta. Numa das paredes, um azulejo escrito em castelhano prende-me a atenção e o sorriso: “La buena vida es cara; la hay más barata, pero no es vida”.