quarta-feira, agosto 8
Viagem ao Centro das Américas 24
Viagem ao Centro das Américas 23
A dúvida que se instala é entao a seguinte: onde sao as pessoas mais felizes? É uma pergunta muito difícil, reconheço, e seria quiçá demasiado pretensiosismo procurar responder-lhe em meia-dúzia de linhas. Ainda assim, é sempre possível estabelecer pelo menos algum termo de comparaçao. As sociedades mais religiosas (chamemos-lhe assim por conveniência de argumento - é óbvio que existe consumismo e religiosidade dos dois lados) parecem estar mais orientadas para a comunidade. Isto tem desde logo uma explicaçao mais ou menos evidente: o indivíduo tem muito mais dificuldades em subsistir sozinho. Sem a comunidade, sobretudo sem a família, o sujeito pode estar irremediavelmente condenado à miséria. Por outro lado, e porque nestas coisas nunca se sabe muito bem onde está o começo e o término de uma dada realidade, a própria filosofia inerente a qualquer religiao valoriza o papel da família, sobretudo o da hierarquia entre mais velhos e mais novos. Ao contrário, é hoje evidente nas sociedades do chamado primeiro mundo (outra vez, a nomenclatura é só por questoes de conveniência) que a instituiçao familiar se encontra em crise. Basta passar uma manha numa qualquer escola numa qualquer cidade média para constatar esta evidência, basta ver as histórias de solidao que cruzam os telejornais em horário nobre. Porém, neste caso, e talvez nao por acaso, é interessante observar como a sobrevivência do indivíduo está muito menos posta em causa. Isto resulta, obviamente, de um maior nível de vida em termos económicos. Embora a vida nunca seja fácil para o comum dos mortais em parte alguma, o certo é que em vários países da Europa, por exemplo, um emprego pode ser desde logo sinónimo de independência, se nao total pelo menos suficientemente parcial para que o indivíduo se baste mais ou menos a si mesmo. Por outro lado, é também certo que as sociedades mais consumistas, por o consumismo se destituir de grandes complexidades, apresentam hoje maiores problemas éticos e morais - a chamada crise de valores - para nao falar no consumo crescente de anti-depressivos.
Nas minhas viagens por paragens mais longínquas, em países que se podem talvez considerar ainda como em vias de desenvolvimento, encontrei uma humanidade e uma dimensao espiritual que sem dúvida me impressionou, e muito, pela positiva. Também nao é incomum encontrar outros viajantes que, vindos de lugares semelhantes àquele de onde vim, se decidiram a ficar, quase todos em busca de uma qualquer dimensao de humanidade social que supostamente lhes escapa. Curioso é, porém, notar que outra coisa relativamente vulgar é encontrar pessoas, sobretudo jovens naturais dos lugares que visito, que procuram indagar sobre como se trabalha e se vive no país ou regiao de onde venho. E aqui sucede também algo de extraordinário, pois o que mais sucede é dar-me conta do quao acima estou de facto do seu nível de vida ao mesmo tempo que lhes percebo no rosto e nas palavras uma certa admiraçao e uma certa inveja. Assim sendo, já aqui o disse, permanece sempre por saber qual dos lados convive mais de perto com a felicidade. Outra questao se levanta entao: estará o Homem condenado a este eterno desequilíbrio?
terça-feira, agosto 7
Viagem ao Centro das Américas 22
Montanha abaixo, vulcao acima, nao há tempo para parar e tirar fotografias. O ritmo tem de ser forte que é para nao quebrar. A principio, parece fácil. Afinal, para baixo todos os santos ajudam. Nao é. A inclinaçao obriga a travar constantemente e cada passo é um pontapé nos músculos. O entusiasmo da "mara" (malta, em espanhol salvadorenho) faz a primeira vítima. Moisés aterra de tornozelo depois de um salto mais arriscado. Homem ao chao e alguns urros de dor... contidos, que estamos aqui entre homens e nao há que dar parte de fraco. O desempenho de Moisés está agora seriamente comprometido e é certo que este Moisés nada tem a ver com o outro, aquele que abriu o mar e subiu à montanha para debitar mandamentos, embora lhe pareça ler no rosto que pede a Deus um elevador. Nada a fazer, Moisés há-de continuar mas há-de ser o último a chegar, já coxo e derreado.
E é assim a cratera do Izalco:
Depois, vem a melhor parte. Primeiro sao apenas umas pingas, uma leve humidade que se julgaria natural dado o nevoeiro. Estamos à altura das nuvens, se calhar isto é só água a passar. Nao. As gotas ficam mais grossas e o que acontece a seguir chega a ter dimensao bíblica. Chove torrencialmente e... nao há abrigo. Algumas rochas aqui e ali podem proteger do vento, mas de resto é tomar um duche com um toque de banho de imersao. Penso "eu trouxe uma capa para a chuva"; digo "estúpido, deixaste-a no hotel". Enfim, eis o estado em que ficou este vosso amigo.
A chuva, note-se, nao foi uma coisa intensa que passasse em 5 minutos. Foi uma coisa intensa que nao passou ao fim de meia hora ou mais. Nao fosse um providencial saco de plástico vindo de uma sandes do Moisés e estaria na difícil situaçao de mostrar aos guardas na fronteira um passaporte sem letras.
A chuva pára entao finalmente, mas os olhares entre nós já dizem o que todos sabemos. O pior vem agora, completamente ensopados e o vento a quase 2000 metros de altitude. Façam uma pequena ideia do que seria tomarem banho com o vosso frigorífico e uma ventoinha sempre a bombar na velocidade máxima. Mas, a natureza sabe o que faz. Nao esquecer que estamos num vulcao ainda considerado activo. Logo, há fumarolas por todo o lado. Em pouco tempo, já a "mara" cruzou a cratera a correr e se aninhou junto ao vapor quente vindo das rochas. O vapor, claro, nao seca a roupa, mas aquece o corpo e o espírito. É aqui que começam as conversas sobre futebol, gajas e calao salvadorenho. Ora cá estao os meus dois amigos Mauricio e Moisés, junto a esta verdadeira sauna natural. O fumo que se vê na foto nao é de nuvens nem nevoeiro, é mesmo aquele gás que vem das entranhas da terra.
De espírito restabelecido, toca a descer. Para alguns será mais rebolar. Felizmente que a descida se faz quase na totalidade pela areia. Sinto-me um surfista a fazer downhill. Ao fim de pouco tempo apanho-lhe o jeito. Aos saltos e o corpo de lado, ora para esquerda ora para a direita. É a parte sem dúvida mais divertida do percurso, mas também a que gera mais adrenalina. Consigo cair só uma vez, felizmente de cóxis. Herson, já lá em baixo, diz-me que nao é raro ver um turista ou outro sair dali com pernas ou tornozelos partidos. Vá lá, safei-me. Cá em baixo, é mais ou menos isto que eu vejo, o Izalco a tocar nas nuvens. Se tiverem aí uma lupa, podem ver o Alberto e o Óscar mais ou menos a meio a descer a toda a brida.
Nao, isto ainda nao acabou. Agora é tempo de subir o outro, Cerro Verde. Este tem duas particularidades. Primeiro, a subida nao é por rocha vulcanica mas por um trilho feito de degraus e terra. Com a chuva, feito de degraus e lama. Por degraus entenda-se claro troncos de madeira metidos no meio do solo. Segundo, o nome Cerro Verde nao é por acaso. Toda montanha está coberta de árvores e mato. Logo, mesmo sem chover, a água amontada nas árvores e a humidade própria das florestas da América Central há-de nos cair em cima o caminho todo. Este é o aspecto do que ainda nos resta.
O último autocarro para Santa Ana há muito que já saíu, mas os meus novos amigos oferecem-me a boleia que me salva de ter de decidir ficar a dormir nalgum abrigo ou simplesmente hibernar para poupar dinheiro. Na viagem de regresso, uma última paragem para a despedida: o Lago de Coatepeque.
Para a Maria Ana
segunda-feira, agosto 6
Viagem ao Centro das Américas 21
A história de El Salvador pode bem começar em 1821. 15 de Setembro, este pequeno país, "entalado" entre a Guatemala, as Honduras e o Oceano Pacífico, obtém a independência de Espanha. Antes disso, séculos de repressao sobre os povos indígenas explicam a actual aparência física dos salvadorenhos. Embora vagamente parecidos com os seus vizinhos, os salvadorenhos sao os mais europeus de toda a América Central. Nas ruas de Santa Ana, por exemplo, nao é difícil ver gente de cabelo louro ou olhos claros.
Após a independência, o café torna-se a principal produçao de El Salvador e o pilar da sua economia. A riqueza que gera, porém, à imagem do que sempre havia sucedido no passado, recai nas maos de uma elite minoritária que controla e gere o país a seu bel prazer. Em 1932, Augustín Farabundo Martí, fundador do Partido Socialista da América Central, lidera uma revolta da populaçao juntamente com os povos indígenas. As forças militares, controladas pela elite governamental, respondem com violência. Estima-se que terao morrido cerca de 30.000 pessoas, naquilo que ficou conhecido na história do país como La Matanza. Martí é preso e fuzilado, mas o seu nome e o seu heroísmo haverao de ser preservados pelo tempo e pela acçao dos seus sucessores.