quarta-feira, julho 8

Feridas

Não sei de acontecimento algum que seja uma ferida. Na vida, já se sabe, o primeiro que se lhe conhece é a morte. O final de um beijo, o soltar de um abraço, um amor para sempre que parte, um velho avô que prende a respiração na eternidade. Há as casas, os lugares. Há sobretudo as pessoas, os outros como nós que também partem e que também nos deixam e soltam com o fim de um abraço. Só que na vida não sei de nada que seja ferida. Antes alegria, antes tristeza. O sofrimento e o encontro com a serenidade.
A vida é cornucópia de Deus, tem tudo lá dentro multiplicado por cem milhões. E há as feridas. Mas as feridas são a vida e não sei de vida alguma que não tenha Deus. Então tudo é porque tem de ser. Como uma viagem. Um instante mínimo em que por um segundo se perde um barco, um autocarro, um comboio que nos havia de levar para um qualquer lugar. Às vezes ficamos, às vezes vamos. Às vezes morremos porque há vezes em que renascemos e vivemos. Mas tudo é viagem, tudo é caminho certo e exacto que temos mesmo de percorrer. As feridas são o tempo que nos leva a aceitar esse segundo em que tudo muda para sempre.

2 comentários:

Ana Paulo disse...

Muito bom!
Felizes os que sabem aceitar (com alegria ou tristeza) o segundo da mudança, preparando o coração para o resto da viagem.

Ana.

Ana Rute disse...

E como é diferente o tempo que leva a engolir essa ferida do tempo que engole esse segundo...