A vida é cornucópia de Deus, tem tudo lá dentro multiplicado por cem milhões. E há as feridas. Mas as feridas são a vida e não sei de vida alguma que não tenha Deus. Então tudo é porque tem de ser. Como uma viagem. Um instante mínimo em que por um segundo se perde um barco, um autocarro, um comboio que nos havia de levar para um qualquer lugar. Às vezes ficamos, às vezes vamos. Às vezes morremos porque há vezes em que renascemos e vivemos. Mas tudo é viagem, tudo é caminho certo e exacto que temos mesmo de percorrer. As feridas são o tempo que nos leva a aceitar esse segundo em que tudo muda para sempre.
quarta-feira, julho 8
Feridas
A vida é cornucópia de Deus, tem tudo lá dentro multiplicado por cem milhões. E há as feridas. Mas as feridas são a vida e não sei de vida alguma que não tenha Deus. Então tudo é porque tem de ser. Como uma viagem. Um instante mínimo em que por um segundo se perde um barco, um autocarro, um comboio que nos havia de levar para um qualquer lugar. Às vezes ficamos, às vezes vamos. Às vezes morremos porque há vezes em que renascemos e vivemos. Mas tudo é viagem, tudo é caminho certo e exacto que temos mesmo de percorrer. As feridas são o tempo que nos leva a aceitar esse segundo em que tudo muda para sempre.
domingo, junho 28
Cruzamento
O homem simpático passava pela mesma rua da mulher violenta. Saíam os dois à mesma hora de casa, os dois subindo o mesmo passeio em direcção ao mesmo edifício. Que dia lindo, pensava o homem; vida de merda, murmurava a mulher.
O homem simpático não usava óculos nem tinha um ar cândido, mas era assim dado a modos de franzino. A mulher usava óculos por cima da pele seca e do rosto branco, olhos azuis e redondos.
O homem, por ser franzino e por ser simpático, seguia cumprimentando toda a gente, floristas e lojistas por igual, gente que o conhecia pelo sorriso. Bom dia, dona Lena, então essas rosas, dona Letícia.
A mulher, por ser seca e por não ser simpática, olhava os decotes da Dona Lena e da Dona Letícia e pensava grandes lambisgóias, não devem é ter em casa homem que vos dê assistência.
Subiam ambos a rua e se fosse o caso de chover, o homem abria o seu guarda-chuva e dizia de si para si que tristeza não poder hoje cumprimentar as gentes, ao menos que todos estejam recolhidos, bem merece abrigo este povo tão prestável. Já a mulher, chovendo, chovia ainda mais, as lágrimas quase nos olhos da raiva que sentia por o dia não ajudar.
(que nojeira de passeio, se apanho o sacana que poliu as pedras da calçada juro que lhe dou cabo das ventas)
Um dia, o homem simpático cruzou-se com a mulher violenta à porta do mesmo edifício onde trabalhavam. Ele cumprimentou-a com um ligeiro aceno e de sorriso feito. Ela mandou-o à fava, mas sem dizer. O homem foi até aos elevadores, entrou num deles e carregou no botão. 15, o último piso, residência da administração. A mulher foi até à porta ao lado das escadas e tirou lá de dentro o balde e a esfregona. O homem entrou no gabinete, sentou-se na cadeira de pele e olhou a cidade que lhe pertencia. A mulher pegou na garrafa da lixívia e verteu-a para o balde. Sentiu o cheiro acre do químico e lembrou-lhe o cheiro do hospital, os longos corredores que todos os dias percorria até à cama 21. Chorou um pouco mais, à pressa para não dar parte de fraca, mundo tão estranho.
(que filho este, Deus quem te daria o condão dos meus pecados?)
Lá em cima, quase quase no céu, o homem reclinou um pouco mais o cadeirão e sorveu devagar o café amargo mas que não sabia a lixívia. O travo seco da cafeína trouxe-lhe à memória a tarde em que conhecera a mulher dos seus sonhos, a mulher de sempre que o aguardava ao fim do dia. sorriu de si para si e nunca mais se lembrou da mulher violenta que ainda agora limpava o chão que ele tão simpaticamente pisara.
sexta-feira, junho 19
Instantâneo de uma qualquer história de amor
A camisa fina cola-se-lhe ao corpo e Manuel tem vontade de a rasgar. O calor aperta, sente-se na pele por entre o suor seco que o incomoda como se fosse cócegas que a camisa lhe faz. Cheira a pó e a vento e a vacas, esta camisa que Manuel vestiu faz hoje sete dias. Sete dias a caminhar por estas planícies de deserto, sete dias sem encontrar uma voz, apenas o mugir das vacas que o seguem e perseguem.
Manuel cruza o alpendre da casa e quando entra sente a frescura e o cheiro do picante que lhe aviva os sentidos. Escuta a voz da mulher e adivinha o sabor da carne e do tomate e do feijão, aquele sabor que só a mulher lhe traz, o calor que arde até ao céu da boca, até ao azul por cima do mundo. Manuel sorri e seu sorriso é antes gargalhada. O gosto do regresso e a frescura da casa quase o fazem esquecer a camisa que agora rasga finalmente. Finalmente a pele, o sabor quente que é mais da mulher que do tempo.
(sete dias sem encontrar uma voz)
Lucia corre a beijá-lo, abraça-o com a força do desejo e o que Manuel sente é antes o gosto das amoras que se lhe cola aos lábios. Manuel inebriado à procura do equilíbrio, mas a terra girando ao som da voz da mulher.
(porquê o tempo, meu amor, porquê os dias todos nesta camisa)
Manuel sabe do bâton, as amoras doces e a voz saboreada por todos os que como ele cruzam e cruzaram o alpendre e a frescura da casa. Manuel sufoca entre as pernas de Lucia enquanto o vestido e a camisa lhe fazem crer que são antes as vacas que cheiram a feijão e que o vento e o pó têm o aroma de perfume, de amoras, de carne.
(caio em ti, meu amor, a água branca colada na pele)
Manuel e Lucia seguem confusos, mas sabem que as mãos não os enganam, que a pele que tocam é a mesma que tantas vezes se incendiou na frescura da casa, os dois cegos pelo desejo e pelas gargalhadas que se perdem por entre o vento e o pó.
Espaço
O espaço é vazio, mas tem cor. O espaço tem a cor da liberdade, a cor de podermos correr ao sabor da música de nós mesmos. Saltamos para o vazio e somos outra vez crianças, longe dos quotidianos que outros fabricaram por nós. O espaço é vazio, mas tem lá dentro a cor do mundo para que o possamos percorrer a pé.
domingo, maio 24
Lisboa abandona António
António era de Lisboa. António era Lisboa. Todos os dias, descia as escadas de madeira podre e desembocava na Rua da Madalena mesmo a tempo de ver nascer o dia. Àquela hora a hora era de mais uma madrugada, gaivotas e o chão molhado, Lisboa bocejando depois de mais uma noite mal dormida. António descia as escadas, o chapéu cinzento na mão enrugada e os pêlos brancos presos no queixo antes da navalha do Gomes, barbeiro do Borratém, lhes cortar a esperança de crescer. Como António, aqui nascido e criado, marinheiros e prostitutas e gente vinda de toda a parte e agora os ingleses de olhar aberto como se Lisboa existisse desde ontem. António não tem em si a esperança mas a modorra dos dias iguais, a certeza segura que encontra na calçada da Rua da Madalena e no chapéu cinzento que deixa cair sobre a cabeça lisa e desgrenhada.
António vai devagar. O passo leve até ao Martim Moniz, a espera, o café do Ruço que só abre às sete e meia. Uma carcaça e um galão.
(o médico diz que o leite é bom. é bom para os ossos, não importa as dores de barriga)
Depois, outra vez a praça, a manhã crescendo no olhar de António e Lisboa abraçando-o com o sol.
(como vai o velho amigo?)
Só que hoje Lisboa não está para o aturar. Tem em si o frenesim das grandes capitais, quer o sol mas também quer a lua e grita e diz que a manhã não passa, que o tempo não passa, que quer a noite e se a noite não chega jura que há-de matar o velho. O chapéu cinzento e a barba ainda por fazer, sempre igual e todos os dias Lisboa tem de o abraçar e todos os dias Lisboa tem de lhe lembrar que a vida é um tédio e que se não fosse Lisboa já o velho não seria nada.
(parece que se chama António, Lisboa lembra-se de o ver nascer num tempo em que ainda sentia carroças e cavalos correndo sobre si)
Lisboa tem em si a agitação de não saber o que lhe há-de suceder mas de quem sabe que algo lhe há-de suceder. Sente o coração estalar por baixo das águas e tem a impressão que ou desata a chorar e se inunda nas margens ou começa a rir e se deixa levar pela cacofonia dos ares. É isto que Lisboa sente antes de se abrir em golfadas que a fazem sentir-se por dentro, as entranhas respirando e o corpo crescendo e o corpo arfando, Lisboa chora e ri ao mesmo tempo, vê a gente correndo louca e o ruído que se não cala. Lisboa vai-se afundando nas águas, mas fica muda de espanto quando vê o velho.
De corpo quieto, o chapéu sobre a calçada, António impávido nas suas certezas, nos seus lugares de sempre, indiferente à Lisboa que treme e chora e ri antes de se afundar nas águas.