sábado, agosto 4

Viagem ao Centro das Américas 19

Manha. Nueva Ocotepeque. Apanho um colectivo, uma pequena carrinha onde parecem caber mais sacos e alcofas cheias de fruta e vegetais que pessoas. Há quem leve uma cama e estamos a falar de uma pequena Toyota Hiace. Vale que vou junto à janela e a distância é curta. Meia hora depois estou em El Poy, a fronteira entre Honduras e El Salvador. O colectivo pára do lado de cá e começo a caminhar entre barracas, guardas armados, cancelas e montes feitos de pedras. É preciso nao esquecer que estes dois países já estiveram em guerra, que existem ainda inúmeras disputas quanto aos limites fronteiriços entre eles. Nao se vê um único estrangeiro, sou só eu, caminhando de mochila às costas por entre este amontoado de história e de gente que cruza uma simples linha desenhada num qualquer mapa.
Chego a El Salvador a pé. Primeiro posto de controlo, um homem de sorriso e rosto abertos aproxima-se de mim com um molho de dólares na mao e pergunta-me se quero trocar lempiras. Quero, mas o homem recusa-se a trocar apenas o meu dinheiro. Conversamos sobre de onde venho, para onde vou. Um guarda aproxima-se e pede-me o passaporte. Comecamos os tres a conversar. Tinham-me dito que o melhor de El Salvador sao as pessoas, mas isto é quase ridículo. Andei cem metros, estas sao as primeiras pessoas com quem falo, mas a diferença é realmente impossível de negar. E é de notar que nas Honduras já havia experimentado uma hospitalidade fora do comum. A razao talvez esteja no facto de El Salvador estar ainda totalmente imune ao turismo. O homem troca-me o dinheiro e despede-se com um caloroso aperto de mao, o guarda dá-me permissao para avancar, mas nao me manda fazê-lo. Passo um lugar que mais parece terra de ninguém, onde apenas um longo pavilhao azul e branco subsiste. Do outro lado, há outra cancela. Os guardas olham-me mas ninguém me manda parar. Continuo.
Um rapaz numa moto-táxi leva-me até Citalá, uma pequena aldeia a um quilómetro de El Poy onde posso apanhar o autocarro para Metapán e seguir viagem. Faltam ainda mais de duas horas para essa partida, procuro um lugar para comer. Cruzo a praça meio deserta onde se ergue a igreja, um autêntico extra-terrestre de mochila às costas no meio de outro mundo. Há paredes e casas pintadas com letras e desenhos que lembram as lutas de outros tempos, a guerra civil que terminou em 1992 e que se estima ter matado mais de 75.000 pessoas. Reflicto que a maioria das pessoas à minha volta deve ter alguma recordaçao da guerra, que deve ser algo ainda bem presente na memória deste povo e que é isso mesmo que as pinturas murais nao deixam esquecer.
Chego a um pequeno restaurante totalmente vazio, mas com um aspecto familiar e arrumado num pátio interior cheio de sombras. Um velho usando um chapéu de vaqueiro vem à porta e pergunta-me o que procuro, o que preciso. Estende-me de imediato a mao e convida-me a entrar. Já estou a comer quando vem sentar-se comigo. Chama-se Santiago Pinto, 77 anos, a vida ganhou-a na "ganadería". Quer saber o que faço, onde vivo, qual é o idioma do meu país, se tenho noiva ou namorada, se caso em breve, quanto tempo tenho de férias, quanto ganho como professor, qual a moeda do meu país, se o governo do meu país me ajuda a mim ou aos meus alunos, porque viajo. Despede-se de mim com um "Que Diós lo bendiga" que é uma verdadeira bençao. Mando às favas a minha condiçao de ateu e respondo "Que Diós lo bendiga a usted también". Sabe-me bem dizê-lo.
Autocarro para Metapán. Outra vez um velho school bus. Falta mais de meia hora para que parta, mas Santiago diz-me para ir já. Quando lá chego percebo. Ao entrar já só existem meia-dúzia de lugares livres. Há sobretudo crianças e jovens, algumas mulheres. Sento-me mesmo a tempo, dez minutos depois o corredor comeca a ficar assustadoramente cheio. Faltam ainda vinte minutos para o autocarro partir e as pessoas continuam a entrar. Quando finalmente partimos, já todo o meu conceito de sardinha em lata se alterou para sempre. A viagem até Metapán durará tres horas e meia por entre estradas de montanha. Tres horas e meia e dezenas de pessoas de pé. Ninguém protesta.
Juan, sentado ao meu lado, informa-me da duraçao da viagem e diz-me com uma gargalhada "Que vamos fazer? Se sair e for a pé canso-me ao fim de um quilómetro!" Juan vai juntamente com doze amigos seus a um encontro de jovens evangelistas em Metapán. Pergunta-me se conheço a Bíblia e diz-me que para os evangélicos o estudo da Bíblia é essencial. Também me diz que cresceu católico, mas que há poucos anos atrás, a meio da adolescência, sentiu uma mudanca no coraçao. A sua convicçao no meio da sua crónica boa disposicao impressiona-me. Passamos uma boa parte da viagem a conversar, Juan contando-me anedotas, corrigindo o meu espanhol, curioso por saber as semelhancas com o português, ensinando-me as expressoes típicas do "seu" espanhol e dos seus amigos. O autocarro mal ultrapassa os 40 quilómetros por hora, as gentes no corredor apertam-me contra o meu assento, mas mesmo assim mal dou pelo tempo passar. Chego a Metapán a meio da tarde, as costas cada vez mais doridas, o espírito cada vez mais solto. Nunca nas minhas viagens me senti tao perto de um povo, tao imerso naquilo que verdadeiramente faz um país.
De Metapán apanho um autocarro que em pouco mais de uma hora, e bem mais confortavelmente, me deixa em Santa Ana, a segunda maior cidade de El Salvador, rodeada de vulcoes e parques naturais. Cansado, cometo o exagero de ficar no Hotel Livingston, um dos dois únicos da cidade. Um quarto só para mim por 15 dólares, uma verdadeira extravagância por estes lados. É já noite quando chego às páginas do caderno em que agora escrevo. Passaram aproximadamente 12 horas desde que deixei Nueva Ocotepeque.

Para a Sofia C.

Viagem ao Centro das Américas 18



Deixei finalmente Copán para trás e parti rumo a El Salvador. A intençao inicial era passar a fronteira e parar em Metapán, uma pequena cidade nas montanhas. Todavia, cheguei a Nueva Ocotepeque, ainda do lado hondurenho, já perto das quatro da tarde, ou seja, muito depois do último autocarro que sai do lado de lá da fronteira. Resolvi sair e passar aí a noite. Sigo viagem amanha de manha.
Nao vi nem um estrangeiro em Nueva Ocotepeque. Ao escolher esta rota, ainda por cima apanhando os autocarros "colectivos" (velhos school bus norte-americanos), saí por completo das rotas turísticas habituais. Há desvantagens nisso, mas as vantagens sao evidentes. Desde logo, o facto de contactar muito mais de perto com a vida real das pessoas que aqui vivem. É exactamente isso que pretendo e é exactamente isso que estou a fazer. O mais que vejo sao trabalhadores rurais, ou vendedores de rua, ou gente que segue o seu caminho na luta do dia-a-dia.
Um rapaz novo, talvez vinte anos, entrou no autocarro pela porta traseira. Carregava consigo a mais estranha das bagagens. Amontoadas em redes e sacos, o rapaz trazia desenas de centenas de latas de refrigerantes, todas elas bem amassadas e agrupadas, formando um círculo perfeito. O rapaz atirou uma, duas, tres, quatro destas esferas de aluminio sujo e colorido e entrou, na mao a meia-dúzia de lempiras para pagar ao revisor, e seguiu até á cidade mais próxima.
Ao viajar assim, é impossível nao reflectir sobre o que é a vida deste povo, de que sao feitas as suas conquistas diárias. Conheci um homem no autocarro que me disse que havia vivido cinco anos nos Estados Unidos. Para muitos, a terra do Tio Sam é obviamente um El Dorado, algo que os tira desta rotina em que se luta sobretudo para conquistar o hoje. Nao posso deixar de me lembrar de todas as vezes em que ouço as pessoas do lugar de onde venho queixarem-se das suas vidas. Porque se apanha muito trânsito, porque nao se ganha o suficiente, porque a escola dos meus filhos abre demasiado cedo, porque saio do trabalho demasiado tarde, porque o Benfica perdeu, porque as coisas "neste país" nao funcionam como deviam, porque o chefe é um idiota... Tudo queixas legítimas, pois claro. Como se pode ganhar o suficiente quando um televisor LCD custa tao caro, ou como nao apanhar tanto transito logo agora que comprei o último modelo série B da Toyota? Sou professor e vivo em Lisboa. É esse o meu mundo, foi aí que cresci, algumas destas queixas tambem já terao sido minhas. Certo, mas que dirá o homem que viaja para um país onde nem a língua o reconhece, ou o rapaz de latas de refrigerantes às costas? Que queixas terao eles, quais serao as suas infelicidades?

Para a Susana R.

Viagem ao Centro das Américas 17

Las Sepulturas, Copán

Las Sepulturas é uma antiga povoaçao Maia, nao apenas um cemitério. Para lá chegar caminhei 3 quilómetros, afastando-me de toda a civilizaçao. Ao chegar, encontrei apenas um guarda. Imaginem entao um lugar de silencio absoluto, sem uma única pessoa, onde se escuta apenas o som da natureza e o burburinho dos séculos.





Para a Olga

quinta-feira, agosto 2

Viagem ao Centro das Américas 16

Jantar em casa dos Espinosa

da esquerda para a direita: Monica, Kelly, Eddy, Ricky, Arturo, Tonino, Nelly, Kristin, eu.

A noite foi feita de sorrisos e gargalhadas, de rostos redondos e olhos brilhantes, foi feita de histórias e anedotas. Houve carne grelhada na brasa e vinho tinto, pupusas e frijoles e bolos de cenoura. Tonino, o pai, o chefe de família, recebeu-nos com palavras que mais pareciam abraços. Nelly, a anfitria, quando falava quase sempre ria. Depois ainda Arturo, o filho mais velho, bonacheirao como o pai, Ricky, "el sufrido", e Eddy, o filho mais novo, com a sua colecçao de borboletas e insectos, um verdadeiro guia da fauna da regiao. Tonina sonha ir um dia a Acapulco; Nelly, se os seus sonhos pudessem ser realidade iria até ao Canadá. Viajavam. Tem uma certa inveja de mim porque, dizem, posso trabalhar para ganhar dinheiro tal como eles, mas tenho pelo menos o tempo para o disfrutar. Talvez nao reflictam na felicidade imediata que está ali mesmo, ao alcance dos seus gestos e das suas palavras, do calor que advém da sua simples existência, uma felicidade que possuem. É a velha história da oposiçao entre o mundo desenvolvido e materialista e o mundo por desenvolver e mais assente na importância da comunidade, a velha história do viajante fascinado com a maneira mais simples de ser dos que o recebem. Procuro nao criar ilusoes. Todo o espaço à minha volta sugere que estou no seio de uma família humilde, que toda a abundância servida à mesa é precisamente porque nos recebem. A vida dos Espinosa nao deve ser fácil, mas a alegria que exibem nao é artificial. As histórias de Tonino, as gargalhadas de Nelly. A noite passa depressa, nao consigo parar de sorrir.

Para A. Lima

Viagem ao Centro das Américas 15





Copan Ruinas é um lugar perigoso. As ruas feitas de pedra estao quase sempre limpas, o clima é quente e húmido durante uma parte do dia, mas geralmente suportável e mesmo fresco durante a noite, o turismo existe mas nao é de massas e está de tal modo integrado na vida dos habitantes que mal se nota, a descontracçao e o bom ambiente imperam. É um lugar perigoso porqe nao apetece ir embora. Tenho ouvido histórias de viajantes que chegaram para passar dois ou tres dias e estao aqui a viver há quase dois anos. Nao é dificil perceber porque. Creio que terei decidido ir-me embora anteontem e ainda aqui estou, sendo o mais provável que só vá amanha. Vale a vontade de viajar e conhecer mais, pois de contrário nao seria surpesa nenhuma que me deixasse ficar por aqui durante seis semanas. Ou talvez mais...

Para Sophia