quinta-feira, abril 12

Diários do Deserto 3

Viagem a solo

Ao chegar, é inevitável deparar-me com a solidão em que me encontro por ora. Viajo sozinho, estou só. Primeiro que tudo há o silêncio. O silêncio em mim, o silêncio de tudo existir à minha volta sem que uma palavra me cruze os lábios. Os sons ao redor percebem-se mais, são mais intensos e presentes porque não há som em mim. Mas não é só na cacofonia dos elementos que é perceptível a ausência de companhia. O mesmo se passa com as cores e com os cheiros. Tudo o que me cerca cerca-me mais, faz-me sentir mais como a parte de um todo. Depois há a calma de caminhar, de percorrer os lugares ao ritmo único de mim mesmo. Penso e sinto e percebo que também assim deveria ser na vida, ter o tempo todo e ser em mim apenas o que sou. O tempo. O tempo para olhar, o tempo para sentir, o tempo para escrever sobre o que sucede e assim cimentar a certeza do que se viveu, o tempo a que se perde a conta de tão devagar que passa.

Volto ao silêncio. Dele resulta a ausência de julgamento, a não verbalização de quaisquer juízos de valor. É esse silêncio que me faz receber em cheio o mundo, com a força de ser meramente aquilo que é. Fernando Pessoa escreveu um dia, no meio dos seus desassossegos, Que me pode dar a China que a minha alma não me tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza da minha alma sou eu, e eu onde estou, sem Oriente ou com ele. Viajar a solo é a junção de duas dádivas, daquilo que nos é dado pela “China”, pela Índia ou por Marrocos e daquilo que a nós mesmos nos damos por estarmos tão perto de nós.

terça-feira, abril 10

Diários do Deserto 2

Primeiras impressões – Casablanca, manhã do dia 1 de Abril

Não percebo nada do que as pessoas conversam à minha volta.

Domingo talvez seja um bom dia para chegar a Casablanca. Tudo calmo e não há sobrelotação de pessoas em parte alguma.

Sinto-me espantosamente tranquilo.

Os comboios são muito confortáveis, mas sobretudo lembram-me os da minha infância na Linha de Sintra.

Já não me lembrava de como o meu francês pode ser tão mau.

Casablanca parece ser um amontoado de casas velhas e prédios sujos, mas é certo que só vi a cidade da janela do comboio.

Os homens vestem uma espécie de camisa de noite grossa e com um capuz que me dá a impressão de ser muito confortável e prático.

Estamos em terra muçulmana, logo, já se sabe, mulheres de cabeça tapada e afins. Todavia é curioso ver que há muitos homens que carregam os filhos ao colo e que são eles que mais parecem interagir com as crianças.

Está frio, por isso, para já, lá se foi o mito do calor em África…

Sinto que venho visitar antepassados. As linhas nos rostos, a pele, os olhos, sendo diferentes dos meus, transmitem-me uma vaga sensação de familiaridade que não consigo bem entender ou classificar.

A primeira fotografia que não tirei mas gostava de ter tirado: um bairro degradado, tipo shanty town, casas rasteiras e chão enlameado, lixo encostado aos muros. Por cima de tudo isto, centenas de antenas parabólicas todas viradas na mesma direcção, a Este.

sábado, março 31

Diários do Deserto 1

Introdução à quimera


Por enquanto o deserto é ainda uma miragem. Um projecto, um ideal, um sonho, uma partida ainda por chegar. Faltam 30 horas, 20, 10 horas, falta o tempo que o coração há-de percorrer em sobressalto e a cabeça de um lado para o outro, às voltas ambos com o que não sabem mas gostavam de adivinhar. Há os preparativos e a mochila por carregar, os jantares de despedida e os telefonemas de última hora, as compras, as leituras e as planificações, os caminhos calcorreados em forma de palavra. O que é preciso fazer. E o deserto. O Sahara. Destino nada longínquo, aqui mesmo à mão de semear do homem que sonha. Proponho-me não morrer de sede, falar com estranhos sempre e onde for possível, olhar bem, mas muito mesmo, à volta, cerrar as pálpebras e quem sabe sentir o vento se vento houver. Proponho-me descobrir e ver de que é feita essa areia seca sobre a qual tanta água um dia se desmoronou, contar como foi e como é, subir a uma duna e gritar, descer aos rebolões como se fosse criança. Parar em silêncio, ser. Proponho, prometo, sonho. Mas por ora apenas adormeço, embalado pelo deserto, vaga fotografia da imaginação.

quinta-feira, março 29

segunda-feira, março 26

Pausa

Faço uma pausa na literariedade e abro o jornal. Salazar venceu o concurso Grandes Portugueses. Cunhal ficou em segundo. Eu, por mim, deixei de ter televisão há mais de seis meses.