quinta-feira, fevereiro 11

Estado de espírito

11.02.2010



Ele há semanas assim, em que parece que nada passa. Os jornais ficam nas bancas, esquecidos, a debitarem manchetes nas quais mal reparo. A televisão muda, quieta, por vezes apenas um flash momentâneo entre uma refeição e outra. Sei que o país continua em bolandas, a braços com orçamentos discutidos horas a fio enquanto a confiança diminui atacada pelos virus das escutas e da imprensa sensacionalista. Sei porque não sou cego nem surdo, porque é sempre impossível escapar incólume à gritaria da informação.
(até os semáforos servem para nos informar, meia dúzia de folhas passadas de esgueira pela janela do automóvel e já agora uma ajudinha para a senhora que vende pensos. Na capa está Portugal inundado de publicidade)
É que ele há semanas em que apetece mais fechar os olhos e dormir. Passar o tempo na modorra do sol de Inverno que já vai aparecendo, a fazer lembrar que afinal já não falta assim tanto para a Primavera. Ou então, abrir os olhos, mas colá-los nas páginas de um bom livro e não mais os tirar de lá. Ou sentar no escuro do cinema enquanto cérebro descansa na sequência da narrativa em movimento. Comer imaginação, sem dar demasiada atenção ao que se passa e mais atenção ao que não passa, as coisas da vida que mesmo passando não ficam esquecidas na manchete de um jornal ou nas palavras de um qualquer repórter no telejornal da noite.

sexta-feira, fevereiro 5

A política é uma habilidade

05.02.2010

(Considerações de um cidadão comum sobre o assunto político do momento)


A discussão à volta da Lei das Finanças Regionais leva o cidadão comum a questionar-se: e isto tudo é para quê? É verdade que já quase ninguém acredita que Alberto João Jardim merece o dinheiro todo que lhe dão, ou que a Madeira e os Açores são duas regiões em desenvolvimento paralelo. Mas é também verdade que as verbas que estão em cima da mesa (ao que parece, 50 milhões de euros) não justificariam tanta arruaça parlamentar, na medida em que no plano global do Orçamento Geral de Estado, esse valor não é assim tão relevante.
Posto isto, diria o cidadão comum e vagamente informado que tudo se limita a uma guerra política. E é. Sócrates e o seu gabinete, honra lhes seja feita, voltam às fintas de grande habilidade que parecem deixar a oposição como o defesa que não sabe muito bem onde está a bola. Senão, vejamos. A discussão arrasta-se horas a fio, com a comunicação social atenta, dando conta dos acordos e desacordos e a impressão que os senhores estão a matar a cabeça para chegar a um consenso difícil. Mas o ponto do Partido Socialista não é o consenso. Na mira das espingardas cor-de-rosa não está nem o acordo, nem a preocupação desesperante com as contas públicas (como as ameaças de demissão deixaram antever), nem sequer Alberto João Jardim. Quem está na mira são os dois principais adversários de sempre: Manuela Ferreira Leite e Cavaco Silva. Simplificando, a lei até pode passar, mas o que lhe segue é um cenário que dificilmente se pode descrever como de derrota. Em primeiro lugar, porque para uma grande maioria de portugueses, João Jardim fica sempre na fotografia como uma espécie de cacique a gastar o dinheiro dos contribuintes continentais. Em segundo lugar, Ferreira Leite vê-se na contingência de ter de defender algo em particular que depois aprova na generalidade, já que, como é público, o PSD viabiliza o OE para 2010. Em terceiro lugar, Teixeira dos Santos anuncia que recorre à Lei da Estabilidade Orçamental para fazer o que de qualquer forma sempre defendeu, isto é, limitar as verbas para a Madeira. A Lei da Estabilidade Orçamental sustenta que o governo o possa fazer sob o argumento precisamente das dificuldades nas contas públicas e foi - ó ironia das ironias - uma lei aprovada por... Manuela Ferreira Leite. Em quarto lugar, Cavaco Silva dá aos portugueses não mais que um sorriso amarelo e palavras como "tenho esperança". Pois, mas o que o pessoal precisava era de firmeza. Cavaco Silva não a consegue ter e ainda fica na posição de ser possivelmente obrigado vetar a lei da discórdia. Porquê? Porque se não o fizer, corre o risco de alienar uma parte significativa do eleitorado socialista com as presidenciais à porta e um adversário chamado Manuel Alegre. Mais, toda esta dramatização poderia redundar numa outra ironia do destino: Cavaco a vetar uma lei defendida pelo PSD ou o PSD a embaraçar o presidente na corrida para Belém.
Por último, e isto digo eu da minha cadeira de cidadão comum, quem é o único outro jogador a ser capaz de fintas de igual calibre? Pois, esse mesmo, Paulo Portas. É que em todos os jornais e televisões, a imagem que passa é que foi o CDS quem afinal apresentou as propostas mais consensuais, sobretudo a questão da limitação dos tais 50 milhões. Mais, só o partido de Paulo Portas conseguiu colocar os deputados do PS na posição de dizerem "nim" para depois dizerem "não", o que não fica tão bem na fotografia. E o prémio de líder da oposição vai para...

segunda-feira, fevereiro 1

Um sorriso de verdade

01.02.2010

Foto: Konrad Brattke, in Popphoto.com

Conan O'Brien despediu-se do Tonight Show com uma mensagem para os seus telespectadores, sobretudo os mais jovens: não sejam cínicos. Gostei. Se não posso ter mais nada em comum com "CoCo" ao menos partilho-lhe o sentimento. Odeio cinismos. Sejam directos, sua cambada de cobardes.

quarta-feira, janeiro 27

Lógica aérea ou o Portugal dos pequeninos

27.02.2010


Veio a público esta semana que dois funcionários da TAP trocaram mensagens no Facebook sobre uma alegada falta de consideração. Qual foi a falta de consideração? Alguém – um dos funcionários – viajou em classe económica quando costuma viajar em primeira. Porquê? Porque os familiares de um outro funcionário iam em primeira. Então, isto não pode ser. Vai daí, o funcionário despeitado troca as referidas mensagens no Facebook com um outro, quiçá movido por desavenças passadas, que isto um homem ofendido na sua honra não esquece nunca. As mensagens no Facebook, porém, atiram impropérios tais como “atrasados mentais”, “merdosos” e “trastes”. E rebenta a bronca. As mensagens são “apanhadas” e toda a gente fica a saber. Administração, imprensa, portugueses em geral. É surpreendente que tal aconteça, quando se sabe que o Facebook é uma rede discreta e com poucos utilizadores. Mesmo assim, aconteceu e, por isso, resolve a administração da TAP aplicar alguma espécie de sanção (afinal, isto é uma empresa, não um grupo de amigos de escola com arruaças próprias da idade). A sanção é uma formação sobre ética profissional. Uma semana de formação, para a rabecada ser ligeira. Mesmo assim, há aqui um travo, ainda que ligeiro, de humilhação. Resultado: os funcionários recusam. Mais, ameaçam. Se a coisa for avante, fazemos greve. Ou seja, agora estamos aqui: a companhia pode parar serviços e passageiros ficarem em terra. Pode prejudicar-se a gestão da empresa que, como é sabido, há muito tempo não respira propriamente saúde.

Ponto da situação, só para ver se percebo bem: alguém considerou-se tratado abaixo da sua patente, talvez movido por uma certa invejazinha. Esse alguém, sem ninguém lhe pedir nada, comenta o facto publicamente na maior rede social da Internet e insulta quem o destratou. A coisa torna-se verdadeiramente social e há mais colegas a participar na arruaça. São todos apanhados. Um dos visados começa um processo-crime contra quem o insultou. Alguns colegas, solidários, ameaçam greve. Ou seja, por lógica sequencial, um funcionário não viajou em primeira classe e é possível que dezenas de pessoas não possam viajar, ou podem perder-se milhares numa empresa que respira (ou vai respirando) com dinheiros públicos.

Entenda-se: não tenho nada a ver com a TAP e sei que sou apenas um leitor de jornais a ver muito de fora um caso vagamente insólito. Agora, não deixa é de ser um excelente exemplo das graças que só Portugal tem. Mais, é preciso ter cuidado. Com a chegada das redes sociais na Internet, convém lembrar que a mesquinhez e a inveja são agora mais difíceis de manter em segredo. Falar mal dos colegas nas costas, assim como falar mal de tudo, é assim uma espécie de instituição nacional. Mas seja cauteloso. Nunca se sabe quando é que as costas podem aparecer no ecrã do seu computador.

quinta-feira, janeiro 21

O país sem memória

Momento em que Cavaco Silva condecora Santana Lopes com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Ou o momento em que Santana Lopes se prepara para apoiar Cavaco na corrida à presidência. Ou o momento em que o país sem memória parece rir-se de si mesmo. Ou o momento em que o país sem memória é um país sem memória.