segunda-feira, maio 7

Diários do Deserto 19

Observação

Em Essaouira, há muitas esquinas e ruas repletas de comerciantes e turistas. Em Essaouira, há uma esquina, junto à muralha que dá para o mar, onde um rapaz se senta vendendo gorros. São feitos de muitas cores, mas o rapaz usa apenas um simples jellaba branco. Passo pelo rapaz e resolvo por ele não passar. Sento-me escrevendo e observo-o à passagem dos turistas e dos transeuntes locais. O rapaz, de vez em quando, distrai-se do seu ofício para falar com um outro grupo de rapazes. Estes estão um pouco mais adiante, numa outra esquina, e jogam futebol e conversam e riem e fazer rir o rapaz. Este, quando ri, é sabido que ri. Tem uns dentes tão brancos que em linguagem de poeta se diria confundirem-se com a espuma das ondas. Os turistas passam e o rapaz repete os gestos. Aponta, mostra, sorri, fala, discute e regateia preços com os dedos. Faz mais gorros, tricotando com uma mestria capaz de fazer inveja a muitas avós. Os turistas passam e o rapaz mal se levanta. Passam os turistas e passa também o tempo, tempo em que observo e o rapaz não vende um gorro sequer. Só que o rapaz não desiste. Continua. Tricotando e regateando e sorrindo. Por vezes, sem interromper o seu frenético movimento, ergue o rosto e o olhar na minha direcção. Sinto que a minha presença lhe é indiferente. O que lhe interessa e importa são os turistas que passam. Talvez que um deles compre algo e lhe troque o trabalho por dirhans. Mas os turistas passam e para eles também o rapaz passa, um jelleba branco igual a tantos outros numa esquina vulgar. Passam ambos por ambos mais parecendo que trespassam. E assim segue a ordem do mundo, como se os turistas mais não fossem que dirhans passando e o rapaz alguém que antes de ser rapaz já vendia gorros numa esquina de Essaouira, junto à muralha que dá para o mar.

Sem comentários: